sábado, 4 de novembro de 2017

Poema do contentamento

Todas as estações são primaveras! A primavera do inverno é saber colher o sentido de sua cor cinza sobre o mundo, da mudez de seu frio cobrindo a natureza gélida. A primavera do outono é muito mais que colher seus frutos, pois eles são poucos diante da beleza infindável dos brotos que surgiram nas primeiras manhãs desta estação. A primavera do verão é colher o sol e dar-lhe um beijo de agradecimento por todas as bênçãos que ele nos traz. Escrever é permanecer neste permanente estado de primavera! Que é escrever se não for receber? Assim como os canteiros captam as flores enquanto os jardins colhem as suas primaveras, assim me comporto no mundo dos homens. Os homens são sérios e sisudos demais para este proceder. E de onde eu colho? Primeiramente é bom assinalar que existe uma alma acolhedora e talvez seja imensa como o mar, avista longe como seus faróis e plaina em sua superfície as embarcações perambulantes. A minha alma fez um voto perpétuo de aliança permanente. Mas de onde realmente faço esta colheita? Ora, de todos os cantos. Todos os lugares estão repletos de estrelas de mil grandezas! Um bom lugar pode até ser mesmo um simples olhar que pela sua beleza e doçura fez amadurecer os frutos que eu já trazia em meu inconsciente; mas bastou-me seu toque mágico, ou talvez seu pouso, pois um olhar quando pousa dá inveja aos pássaros pescadores de beira praia quando ensaiam os seus mais perfeitos vôos. Eu sou como a própria natureza que gradativamente recebe o sol de cada vez e paulatinamente o deixa cair no horizonte e embora haja estrelas por toda a parte, ela nos deixa ver em suas horas adequadas o fulgor de todas elas. Escrever é dedicar-se a receber. Em seguida é oferecer em forma de palavras esmerilhadas como jóias de ourives, para que todos participem deste festival de cores, de sons, de imagens e de reinos por trás de todos os reinos da natureza e de planos que nos atravessam. Mas há que ter sensibilidade para saber destas coisas. A sensibilidade é uma antena que capta todas estas impressões. Por ela recebemos todas estas mensagens maravilhosas formadas em corpos de idéias, imergidas das profundezas do reino de todas as artes que é o reino oculto da criação. Também é necessário ter muita intuição. A alquimia das palavras exige este cadinho mágico para fazer suas porções milagrosas. Ela é como a varinha de condão das fadas que vai tocando em miríades de coisas, porque ela alcança qualquer lugar e não há um que seja tão distante ao ponto de não ser tocado com toda a sua vibração. Erradamente os homens só chamam a primavera de primavera. Não sabem eles que tudo é primavera? Não sabem porque são duros demais uns com os outros. Não sabem porque vivem somente nas superfícies das coisas e nas peles uns dos outros. Não sabem porque para eles só existe a matéria em sua última escama. Por estarem agarrados em demasia a ela não conseguem respirar o fenômeno, o surpreendente, o magnânimo que há por trás de tudo, o fogo sagrado que queima em devida proporção em cada coisa que há. Quem sabe dançar nesta chama tem dentro de si o segredo do tempo e alcança um degrau tão elevado que pode do alto observar os homens, mesmo atendendo-lhes como um simples servo.

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