Um intelectual percorre a exposição, observando detalhe por detalhe, enquanto uma senhora muito simples o acompanha. Democracia é assim mesmo. Portas e janelas abertas com possibilidades a todos. Pode ser que em algumas circunstâncias complique, mas vale a pena exercitá-la. Aliás, a democracia é como o ser humano: nasce do exercício em si.
Desta forma abriram a exposição em praça pública. Todas as obras de Salvador Dali, expostas num imenso salão sob os olhos atentos e curiosos das pessoas. O surrealismo contrastando com a decoração delicada da sala. Ora, entender Dali, não é simples. Suas introspecções a níveis intrapsíquicos nos confins do inconsciente freudiano ou coletivo junguiano, percorrendo a vastidão sexual e os campos oníricos, requerem uma base sólida de conhecimento, para interpretar suas obras. Por exemplo, através de um gafanhoto ele interpreta a perda e o medo; através da formiga, o fim, a destruição, o desejo sexual; o ovo representando o útero, o mundo; caramujo representa a cabeça do homem; o relógio a essência da teoria da relatividade einsteiniana; o elefante é o contraste espacial em sua distorção longitudinal. Na tela renasce a metafísica transcendida do mundo transcendental/onírico.
O professor permanece em silêncio diante do quadro "Crianças geopolíticas assistindo o nascimento do novo homem", de 1943. É um quadro profético. Após a segunda guerra mundial, acreditava-se que o homem seria outro, depois de tantos horrores passados. Dali não pensava assim. Tanto que o quadro mostra uma paisagem apocalíptica de um nascimento hecatômbico de um récem-nascido/homem saindo de um ovo(o mundo), sendo assistido por uma criança assustada e amedrontada e uma mulher-esqueleto/musculosa ao mesmo tempo. Os continentes saem do ovo em estado de degradação, inclusive da África Ocidental cai uma lágrima, enquanto um filete de sangue escorre junto com o naciturno.
Ao lado, um auto-retrato do pintor, com os olhos arregalados, os cabelos esvoaçantes, a boca semi-aberta num semblante desesperador.
A senhora pergunta para o intelectual? "Quem é ele?"
O professor responde: "É o Salvador Dali!"
"Coitado, merece toda esta homenagem. Com todo este mundo caindo aos pedaços, ele conseguir salvar tudo isto, não foi brincadeira não! Mas qual era o nome dele?"
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