Eles não se conheciam. Também não havia espaço nem tempo para se conhecerem ou reconhecerem. Estavam no shopping diante de uma grande loja. O primeiro observa as paredes forradas com o termo "liquidação". Um reflexo de si mesmo: liquidação social. Como não há distribuição justa de rendas, uns lambem com os olhos.
O segundo examina todos os produtos ofertados em condições de adquirí-los imediatamente. Lembra-se de uma pergunta paterna: O que você quer ser quando crescer? Cresceu, cresceu, cresceu e inflou. Agora o maior dilema é perguntá-lo: O que você poderia ser quando dimunuir seu ego? Este é o único que observa os outros dois. Com a retirada dos estudos filosóficos e sociais das escolas, fabricam robôs exterminadores do futuro.
O terceiro mira um espelho enorme com moldura de prata. Já passou dos cinquenta. Ele raciocina: eu não tinha este espelho... ele não era imenso.... ele não refletia o mundo ao seu redor...eu não tinha um espelho com esta moldura...ela não era de prata...eu quero este espelho, etc. Ele não se vê como Cecília Meireles se via no espelho, após a passagem do tempo. Infelizmente hoje em dia não há mais o ser. Só o ter. No lugar do humano instalaram o consumidor.

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