domingo, 22 de abril de 2012

SIRI PERDEU O DOM DA RÉ

TREMENDÃO GANHA PRÊMIO DE FEIURA Interior quando faz festa, faz festa mesmo. Não brinca de brincar não. A cidade toda se movimenta e se alegra. Barraquinhas fazem colares em volta da praça, vendendo badulaques de todos os tipos. A meninada compra buscapé e linguas de sogras. O primeiro brinquedo até que tem seu lugar, mas o segundo não encontra muito amparo entre as senhoras de meia idade acima. Os homens bebem quentão e a fogueira lambe o céu de tão alta que é. O padre fica numa alegria danada, que Cristo quase pula fora do crucifixo, de tanto que ele o aperta. Pelo menos agora dá para consertar o telhado da igreja. Também vai fazer uma pintura por dentro. São Jorge está tão envolvido em manter o dragão preso debaixo de sua lança, que não tem tempo de se livrar das casas de aranha em volta de sua cabeça. Mas o que vamos falar mesmo é da novidade da festa. Este ano lançaram o concurso do homem mais feio do lugar. Deu tanto candidato que as mulheres pensaram que iam morrer solteiras. No ano passado o concurso foi para contador de mentiras. Até gente ressuscitou para participar do concurso. Deu mentiroso de dar rasteiras em cobra. Quem ia entregar o prêmio era o prefeito. Na hora de entregar o prêmio para o vencedor, o prefeito brincou: "infelizmente não pude participar deste concurso, porque nunca contei uma mentira!". Pra quê ele foi falar isso? O ganhador apanhou o prêmio e o entregou ao prefeito: "o senhor me desculpa, ninguém merece mais este prêmio do que o senhor!". Mas o que vamos falar hoje é sobre o concurso do homem mais feio do lugar. Não foi facil dar o resultado final, mas Paulinho Entiriça foi o felizardo. O prêmio era o que estava mais em voga no momento: um canivete corneta, bom para descascar laranjas e um isqueiro vospic, bom para acender cigarro de palha e iluminar debaixo da cama à noite, para encontrar o urinol. Entiriça saiu todo satisfeito e foi correndo para o seu grotão. Mas a estória não termina aqui. Em direção contrária também vinha correndo Tremendão, pois mais feio do que ele, nem diarréia em seu último estágio. Claro que ele queria participar do concurso. Só que perdeu a hora. A mulher dele até que brigou demais: "bem feito, quem mandou você jogar o relógio fora!". Isto é outro caso. Tremendão há um mes atrás foi à cidade comprar conjiquinha e um despertador. Colocou os dois dentro de um saco. Na volta, sentou-se debaixo de um pé de graviola, para tomar um gole e tirar uma soneca. Foi aí que ele escutou o danado dentro do saco: tic-tac, tic-tac, tic-tac. Ele não perdeu tempo. Jogou o bichano fora e berrou: "seu danado, comprei você para me dar as horas e você está comendo a minha conjiquinha toda!". Mas voltemos ao assunto. Tremendão vinha em direção contrária e se encontrou com Tiriça. "Uai, o concurso já acabou? Eu perdi a hora e não pude concorrer?" Tiriça olhando aquela cara feia de jibóia prenha, reconheceu com humildade a sua pequenez: "Não tem problema não, Tremendão. Toma o canivete e o isqueiro. Ninguém mais que você merece este prêmio!". BURACO DANDO RISADAS Seu Domingos, todos os dias religiosamente, dos seus sábados aos seus domingos, guardava antes de dormir, sua elegantérrima dentadura, dentro de um copo d'água, sobre uma mesinha, ao lado de sua cama. Com aquela armadura de dentões brancos, ele sentia-se feliz sorrindo como um burro novo. Agora podia comer cana, rapadura, coco, mascar fumo à vontade e dar risadas de invejar marrecos. Quando não tinha dentadura, ele passava uma vergonha da banguela da miséria. Certa vez perguntaram a ele, porque ele falava "paiaço" e não "palhaço". Ele respondeu: "é porque eu tenho uma faia nos dentes!". Assim como um dia é do caçador e o outro é da caça, também um é de rir e o outro é de chorar. Seu Domingos acordou numa quarta-feira de cinzas, ou melhor, de fuligem total, e não encontrou a sua bendita "bentadura". Só viu o copo entornado sobre a mesa e mais nada. Cadê o ladrão? Por onde entrou o gatuno? Seu Domingos ficou maluco. Em que boca ia caber uma dentadura igual a dele? Quando criança seu apelido era "Boca de Coité", agora, depois do roubo poderia ser chamado de "Boca do Coitado". Como pode um roubo com a casa toda fechada? Seu Domingos vai moendo as horas e remoendo seus pensamentos. Daí a pouco, seu neto vem gritando apavorado: "Vô, vem cá no quintal, prá vê. Tem um buraco que tá rindo sem parar!". Seu Domingos correu prá lá. Era sua dentadura na boca de um buraco de rato, faltando dois dentes. Não tem problemas, ele ia continuar a falar "paiaço", "faia", "teia", "caia d'água", mas desdentado, nem pensar. MINHA VIDA, AGORA EM PORTUGUÊS José Luiz Teixeira do Amaral Se eu soubesse que você viria, eu a teria esperado minha vida. Teria ficado aflito o dia inteiro no alto da colina de minha terra natal, brincando de não ser ninguém com as nuvens ambulantes, e pediria ao pássaro das penas mais coloridas, para beijar a flor mais bela no fundo do quintal, jogaria um vidro de alfazema no quarto onde iria nascer, sorriria para mamãe e me apresentaria a ela, como um pequenino príncipe, antes de nascer, convidaria o sol a ficar parado pelo menos naquele segundo, pois viver vale muito mais que estar aqui, ah! se eu tivesse consciência do dia que viria ao mundo, e agora o que faço com tudo isto que a vida me deu? Os milhares de amigos, a noção do amor e da paz, as multidões de estrelas do universo, o sorriso de uma criança, eu que não vi meu sorriso, agora o vejo na face do teu filho, a união com o Eterno, Ah! minha existência, que grande responsabilidade tu me destes! MA VIE José Luiz Teixeira do Amaral Si j'avais su que vous vinssiez, je vous aurais attendu ma vie! Je suis toujours trés fidèle aux impressions de mon chemin mon amie. Quel est l'homme le plus heurex? L'expérience est la base de toutes les connaissances de tous, c'est la vie! L'innocence est la beauté de l'existence. Où vas-tu homme? Adieu, monsieur, à demain, je crois que j'irai jusq'a la réconcillation avec ma vie, ci-gît un fils chéri de l'universe! Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 14:03 0 comentários Links para esta postagem sábado, 28 de agosto de 2010FRANCOMACOM FRANCOMACOM: UM BLOG QUE FAZ RIR, INAUGURA A ALEGRIA. UM BLOG PARA DISTRAIR E CURTIR COM OS AMIGOS A FELICIDADE DE VIVER. PEDRO PRIMEIRO, DEPOIS O RESTO PEDRO PRIMEIRO, O RESTO FICA PARA DEPOIS Prof.José Luiz Teixeira do Amaral Pedro primeiro, não o Imperador da Independência, mas o primeiro em matemática, português, ciências, artes, francês e latim; também o primeiro depois do prefeito. Rapaz "estudado" do interior, ganha logo o cargo de secretário, primeiro ministro da roça, ouvidor geral, repórter, orador municipal, etecétera aos cabedal. "Vamos para a capital, Pedro. Temos muito o que fazer" A imediata viagem continua calma. Ao lado do prefeito, seu motorista particular, que também é o maior fofoqueiro diplomado do lugar. Atrás a primeira dama ao lado de Pedro primeiro. O prefeito se vira: "quem é aquele homem que chegou há seis meses atrás à cidade? Ele tem contas nos dois bancos. Vem gente de longe encontrar com ele. A rapaziada tá toda com ele.Será que ele tem planos para ser prefeito, Pedro?" Gente estranha, com hábitos diferentes, quando chega a uma cidadezinha daquelas, com muito dinheiro, muito movimento de gente na casa, deixa qualquer prefeito com pulgas atrás das orelhas e carrapatos no saco. "Pedro, tem tres meses que te pedi, para você descobrir pra mim, quem é aquele cara estranho!" Pedro primeiro gelou, depois respirou. Pedro primeiro desabotou a gola da camisa, depois abriu o vidro do carro. Ele sabia que o homem era um homosexual, que veio do Rio para morar naquelas bandas. Naquele tempo, o atraso era muito grande e não podia falar destas coisas perto de mulheres. Principalmente ao lado da primeira dama. Pedro primeiro pensou, depois falou: "Não precisa de ficar preocupado não, seu prefeito. Aquele homem é apenas um pederasta!" O prefeito arregalou o olho pro motorista: "Dá seta meu fio, dá seta pro acostamento!" Voltou-se irritado para Pedro: "Pelo amor de Deus, que falta de atenção a sua, meu assessor! Você não sabe que estamos indo pra capital, em busca de um médico pediastra para nóis. Se você tivesse me falado, nóis já tinha contratado o homem!" Pedro refletiu: "pediatra, para pediastra e pederastra, como saio destas?" "Pois é prefeito, me esqueci de te falar. Eu já perguntei pra ele, se quer um cargo no município, ele falou que não. Está aposentado e mudou pro interior só pra descansar e curtir a frescura do seu chafariz e da nossa paisagem!". PREFEITO COMILÃO Para descrever este prefeito, primeiramente teremos que relatar o processo eleitoral. Em tudo que é canto da cidade, só se via o slogan: "vote em ZÉ DO BREJO" , "VOTE EM ZÉ DO BREJO". Ele subia no palanque e falava todo risonho: "oi gente é vote, não é bote no zé do brejo não", "se tiver que botar, bote nos do contra, bote prá capá". Um dia um eleitor falou: "seu ZÉ, o sinhô se esqueceu de nóis. Num vem aqui nem pra tomá café". A resposta foi relampejante: "esquecê doscês meu fio, credo em cruz e cruz em credo. Não faço isso nunca. Me alembro doscês todo dia nas minha oração antes de drumi". A mulher dele ficava muito sem graça com o apelido dele, mas ele justificava com uma elegância caipiresca: "minha fia, fica fria, ocê não sabe que é pro brejo que tudo vai quando vai. Um dia num falaram que ocê ia pro brejo, e adonde foi pará? nas minha mão! Óia, se a coisa fica feia, a vaca vai pro brejo! Se o dinheiro some, o dinheiro foi pro brejo! Se a muié larga o marido, a muié foi pro brejo! Então minha fia, fica de novo fria, que o ZÉ tá no BREJO, esperando tudo de braço aberto!" ZÉ DO BREJO ganhou de dez a zero. Tornou-se prefeito pela doidesca democracia republicana brasileiresca. Mas o homem fez loucura de reenlouquecer um hospício. Nas escolas municipais até servente dava aulas! Isto é um absurdo se levarmos em conta o que entendemos realmente por educação. Não demorou muito, as denúncias foram se acumulando, inclusive as de desvio de verbas, é óbvio. Então, o Conselho Estadual de Educação juntamente com o Ministério Público enviou uma equipe para fazer uma inspeção na lamacenta política educacional do ZÉ DO BREJO. Ficaram indignados com o que viram e registraram. Marcaram audiência urgente com o prefeito. "Sr.Prefeito ZÉ DO BREJO, perguntamos a um aluno se ele já leu Camões, ele nem sabia o que falávamos!" "Minha fia nossos aluno aqui lê é com os óio mesmo!" "Sr.Prefeito ZÉ DO BREJO, perguntamos a eles de que morreu Júlio César, o imperador romano e ninguém sabia nada!" "Minha fia, nem toca nesta morte aqui não, se não ocês vão atrapaiá a minha política. Aqui quando arguém é matado, nóis interra e não discute não!" "Sr.Prefeito ZÉ DO BREJO, ninguém sabe quem botou fogo em Roma!" "Sabê, eles sabe sim, meu fio. O nome dela não era Roma, era Romanita. Foi coisa de chifre meu fio, mas deixa isso prá lá, que tem peixe grande na jogada!". Enquanto o prefeito falava, exalava um cheiro não muito agradavel de sua boca. Uma pedagoga educacional, para descontrair toda aquela confusão, brincou: "o senhor hoje comeu muito acelga!" Foi neste momento que o homem realmente levou todo mundo pro brejo, com sua resposta imediata: "não, não foi não, foi uma surda e muda!". Quando a Câmara mandou ZÉ DO BREJO pro brejo, não tinha ninguém esperando-o de braços abertos. RAPAZES ALEGRES Eram alegres sim, mas não viviam rindo à toda. Não nasceram para taquara rachada. Vieram para pau de toda obra. Aliás foi nos escombros da construção civil que iniciaram sua vida gentil. Sempre depois das dezoito. Esse negócio de dar gargalhada não! Isto não é costume de quem dá no gargalo aquele sorrisinho singelo. Diziam os tres num coral: nós só rimos quando achamos graça. Porisso eram dados. Francês e ballet ficou no passado. Não dá dinheiro. Um penteava, o outro pintava unhas desenhadas e o terceiro enfeitava noivas. O primeiro era tão especialista que endireitou o cabelo da mulher de um Juiz de Direito da última vara. O segundo desenhava botões de rosa com tanta perfeição nas unhas, que seu apelido era RC EMOÇÕES. O terceiro conseguiu casar uma irmã de caridade, daquelas devotas do só dando que se recebe. Prezado leitor, esta é rapidinha. Estes tres amigos foram convidados para uma festa de cruzeiro em alto mar. Depois de tanto vinho, fuinho, chegaram em casa com tres sacos de nozes européias e não sabiam o que fazer com elas. Então apareceu a grande idéia em forma de uma placa enorme na frente da casa onde moravam: MEUS AMIGOS, VENHAM COMER NOZES! TROCA TUDO/JOÃO SABE TUDO Dizer que a escola era ruim seria uma mentira sem medida. Professor meio doido, diretor desencabeçado, secretária desbaratinada, aluno travesso, pais hiper-protetores tudo isto faz parte do universo escolar. Mas o que vamos falar aqui e peço que acompanhe palmo a palmo e passo a passo é sobre um porteiro sabiá-laranjeiramente chamado de João Sabe Tudo. Meus leitores assíduos, o homem consertava qualquer coisa que aparecesse, mas de vez em quando fazia uma atrapalhada do cão do cão. Certa vez ele fez uma garrafada pra uma professora solteirona que estava pegando espírito do caboclo pegajoso na dobra da esquina e a danada falava seis dúzias de discursos pendurados no cabide dos ouvidos cansados na hora do recreio, que não tinha paciência que dormitasse ouvindo-a. Depois que tomou a garrafada, antes de falar ela assobiava e assim o pessoal saia avisado de fininho, para não ouvir tantas baboseiras. Já que comecei voando baixo, vamos dar um voozinho mais alto. A professora de português estava com vários problemas em casa. O rádio parou de falar, a máquina de lavar roupa estragou, o banheiro deu problemas na descarga e a lâmpada não acendia. João Sabe Tudo arrumou sua maleta e prá lá partiu num final de semana. Cutuca aqui, futuca ali, espicha cá, encolhe lá. Abaixa assim e levanta assado. No final da tarde de sábado despediu-se, acreditando que estava tudo correto como o paletó de Aniceto. Mas o resultado foi desastroso. Quando Aninha, a professora, puchava a corda de descarga, a lâmpada acendia. Ela que era perfeccionista em gramática, logo percebeu que para dar descarga, o esquema era ligar o interruptor da lâmpada do banheiro. Ao ligar ao máquina de lavar roupa, o rádio começou a falar: alô, alô, aqui é da CBN, notícia prontinha no prato! Agora leitor, você já sabe como ligar a máquina de lavar roupa: é só ligar o rádio. O pior veio depois: a sogra da Aninha, não sabe como, engoliu um rolo de fita isolante e dois parafusos de 8mm cabeça phillips. A única coisa que João Sabe Tudo acertou até hoje, foi curar a doença do professor de matemática. Este professor só conseguia urinar, por mais enforcado que estivesse, se espirrasse primeiro. Como o João Sabe Tudo era especialista na lei dos contrários, deu de presente para ele uma caixinha de rapé. Pelo menos agora até nas calças ele urina, mas ficar sem urinar, jamais em francês. Jamais!!!!!!!!!!!! SALIM PEGA FOGO POR DENTRO Quibe crú, cebola, alho, tempero sírio, junto com vinho tinto engaiolado trinta anos, foi o suficiente para botar Salim suando por todos os poros. As vezes ao banheiro foram tantas que esvaziou a caixa d'água e gastou um semestre de papel higiênico numa noitada explosiva de fogos de orifício. Na meia farmácia de seu quintal, escaneou o boldo, a jurubeba, o mentrusto, o chapéu de couro, bardana e todos os brotos do pé de goiaba, que perdeu em horas, pelas mãos heródicas do turco, a sua última geração. Estava tão agitado, que quando seu cão veio dar-lhe o beijo matinal nas mãos, chutou-o: "sai fora que hoje não tô dando confiança pra qualquer um! Mulher vai na farmácia comprar um remédio que tose esta moléstia antes da raíz, porque ela já secou na cova!" A turca voltou correndo, sem bula e sem método, com apenas um envelope dourado nas mãos. Naquele tempo, não era costume o uso de comprimidos efervescentes. O método de tomar comprimidos era o antigo: joga na boca goela adentro e bebe água por cima. Salim mandou logo três daqueles pra baixo da sua gula e abasteceu a moringa de sua pança com três copos d'água. Pronto: estava misturada a chama com a pólvora! Tudo começou a ferver, espumar e lançar nuvens no ar. O turco transformou-se numa caldeira ambulante. Era espuma pelas narinas, orelhas e todos os botões. O turco e a turca na rua, abraçados e gritando, lembravam cenas vietnamitas. O povo corria e pedia socorro: " andem, corram minha gente, pelo amor da santíssima trindade, ajudem, tragam baldes d'água, que o Salim pegou fogo por dentro!" PADRE FOGE COM ESTUDANTE Este interessante fato aconteceu há muito tempo, mas é tão extraordinário que permanece vivo por gerações. Naquela época existiam pouquíssimas escolas pelo interior afora. Então, era costume dos pais enviar seus filhos para estudar em localidades maiores ou até mesmo no exterior. Prestem atenção no que dá esta verdadeira estória. Seu Leandro levantou-se cedinho, dirigindo-se aos campeiros: "óia, prepare a charrete com a Tinfona bem alimentada. Bastante mio e farta água na pança da esperta. Depois leva o leite na estrada, vorta rápido, deixa a sabida descansar um pouco, porque nóis vamo levá a Bárbara depois. O ônibus que vai pra longe, passa lá por vorta das nove." Bárbara nos seus quinze estava setenta vezes ansiosa. Só conhecia emaranhado de canavial, curral, capim gordura, cocheira, inhame no tacho, ter a oportunidade de viver na cidade grande. Arrumou sua mala, seus vestidos de chita, seus pertences, passou cheiro, amarrou a fita vermelha nos cabelos e subiu na charrete. Deixou para trás, em cada curva poeirenta da estrada, um olhar de despedida, sem coisa alguma de lágrima qualquer. Pra frente, um olhar indagativo e apreensivo, com caldo grosso de esperança. Seu pai, daqueles fazendeiros sisudos, reservando lugar de mulher no canto da cozinha, ficou abanando com um prado roto na mão direita. Para ele, mulher só entra na sala, para levar xícara de café aos convidados e fica em pé, muda no canto, esperando o último gole, para recolher as louças. Quem toca a fazenda é o homem. Também espreme a cana e tira a garapa. Cuida de tudo. Só quem fala alto dentro de casa, além dele, é o cuco do relógio de parede gongando de hora em hora, para enfeitar a sala, pois quem regulava mesmo o dia, ainda era o galo, o sol, a lua, as estrelas e as estações. Mulher que ri é porque não tem modos. Mulher torra café, mói, tritura carne, soca milho no pilão, lava roupa na correnteza do rio, faz canjica, dá milho às galinhas, conserva o fogo aceso no fogão, com uma chaleira de café quentinha, comida na hora. Cirze, prega botões, faz remendos, conserva água fresquinha na talha. Bota toalha de rendas na mesa da cozinha, com diversos quitutes, no dia da padroeira. Todo aquele mundo não interessa a Bárbara. Na república, com as colegas, tudo mescla novo. Cartas vão, cartas vem. Bárbara vai, Bárbara vem. Amigas, novos costumes, roupas curtas, badalos noturnos, barzinhos sabatinos e festas. Bárbara vai, Bárbara vem. Um namorado escondido entra em cena, por uma porta semi-aberta. Bárbara abre, Bárbara fecha. Os dias vão passando. A barriga vai crescendo. Bárbara foi estufando o umbigo, vai estufando. O padre larga a batina, dá adeus à rotina e numa madrugada silenciosa parte com Bárbara e traça sua sina. A cidade com os tempos se acomoda. À medida que o vento de outono vai varrendo as folhas das ruas, outras notícias vão chegando sobre as mais antigas. Lá no interior, quando alguém pergunta ao Seu Leandro, "cadê Bárbara?", ele simplesmente responde mineiramente drumondiano: "mandei Bárbara estudar em Barbacena e ela fez uma cena bárbara!" SARNEY ENCONTRA O BERÇO DA LUA E DO SOL Seu nome verdadeiro era Fortunato, mas por certidão de aparência registrada no cartório da percepção popular: Sarney. Sem tirar ou colocar mais nada. A cara de um, a bochecha do outro. Não tanto como o outro, mas sentia-se quase realizado, no seu mundinho pé de serra. Ah! você não sabe a ninhada de andanças que está debaixo deste "quase". Filhos criados, embora malcriados, cafezais esverdeando colinas, paiós engordando ratos, galinhas botando pingue-pongue de ovos no vento de tanto sobrar. Arreios novinhos em folha, somados a conjuntos de esporas, estribos e barrigueiras, com chicotes cravados de prata, tudo em dia. Brilhava pedacinhos de ouro em seus dentes! Porém, aquele "quase" era o todo vazio de sua vida, tal fresta em veneziana por onde o vento noturno incomoda. Aquela dúvida antiga cor da meninice, ali estancada em sua mente: onde nasce o sol e a lua? onde nasce o sol e a lua? Esta, a sua pergunta inquietante "ões" de vezes. Tudo já estava preparado para a grande viagem em troco da resposta dada: galinha assada com farofão ressurregindo o ex-tropeiro e animais selados para a batalha. Fortunato decidiu primeiramente descobrir o nascedouro do sol, tendo em vista sua pontualidade diária frente à lua. Em seguida, o presépio da lua. Foram longas viagens sem sucesso algum, deixando-o cada vez mais obcecado pela procura. Mas chegava em um montanha, olhava atrás dela e o sol nascia na outra montanha. Ia para outra....o sol nascia na outra.... Sua família se preocupou com aquilo. Não duvidaram que o velho Fortuna tinha batido a caçuleta. Os membros se reuniram e decidiram o ultimato: interná-lo em um hospício no Rio de Janeiro. Coisas daquele tempo. Traçaram seu destino. Agora, vestido com um macacão botafoguense, Sarney (ali é que o apelido pegou, pois não duvidavam mesmo que era o dito cujo) comentava todos os dias: ainda vou descobrir onde nasce o sol e a lua! Imediatamente todos o apoiaram na façanha. Uns sem dentes, outros sem roupas, alguns sem unhas, mas todos sem juizo se dispuseram a ajudá-lo, custasse o que custasse. Chegou o carnaval no Rio: fevereiro em fogo no samba da moçada, no rodopio dos morros fervendo sob pandeiros e tamborins. O vigia do hospício delirou sambando vestido de Zorro, transvestido de Tonto, tamborilando um jogo de chaves de forma eficiente a fazê-lo cair em mãos alheias. Os loucos ganharam as ruas e se vestiram com fantasias perdidas pelas calçadas, aos montões. O hospício deu alerta pelas rádios que só tocavam samba e não era possivel encontrar loucos no meio de milhares de napoleões, césares, fantasmas, duendes, arlequins, etc. Sarney vestido de Lampião, com uma louca feia vestida de Maria Bonita, após um fatigado dia carnavalesco, deitou-se nas areias da Praia de Copacabana. Quando o dia se ilumina, lá vem o sol de dentro do mar! O velho sorriu satisfeito. Resolveu passar mais um dia de carnaval com sua companheira naquela maravilhosa praia. A tarde veio caindo. Olhando em direção à praia, viu a bela lua cheia saindo de dentro do mar. No dia seguinte, conseguiu uma carona em um caminhão e voltou completamente curado para a sua terra natal. O enigma de sua curiosa esfinge estava descoberto. A família percebeu que ele não tinha mais a doença mental. Sarney ficava sorrindo de feliz. Quando alguém lhe perguntava, "onde nasce o sol e a lua?", ele respondia calmamente: "seu moço, os dois nascem nas águas do mar da Praia de Copacabana!" VEREADOR PEGA MULHER COM RICARDÃO Vereador Gercino remoendo idéias na sombra: "mooom!mooom!mooom! Óia ô cornooo!!! lá vem o zebú!!!! cuidado que o chifre agarra na castanheira!!! Não! Isto só pode ser comigo! Toda vez que passo aqui é esta zoação! Tô sentindo até uma coceirinha no alto da moleira. Parece que tem um lombinho nascendo na minha cabeça. Se moiá de suó ele pega tamanho! Bem que tô desconfiado da Zezé. Ela tá rindo demais. Bota ropa de meio palmo e salto alto e tá deixando calo na bolsa de tanto usar. Bem que falam que corno é o último a saber. Eu virei restoio dos fatos. É o Geraldim Rapidim com certeza. Aquele consertadô de tudo, da sombrinha ao rádio véio. Zezé leva seu rádio toda semana pra ele consertar o botão dele que emperra. Tem coisa aí. Quanta mais ele mexe no rádio dela, mais altera a minha antena." Roção, vocês sabem como é, não? Vereador Gercino já mediu com sete palmos de fundura a sua vingança e chamou Salú que matava mosca voando. "Te dou todo este dinheiro aqui, mas quero um tiro só." Lá na vila, Rapidim, à altura dos seus movimentos, vira prá lá, vira prá cá, na sua birosca de uma porta só, estampada pra praça. Pega aqui, abaixa lá, guarda ali, no meio de sua vida de multiuso. É o seu dia a dia. Salú chegou aos solavancos do cavalo manga larga, apeou, olhou, mirou, atirou: baaaaammmm! Geraldim nos seus movimentos conforme seu apelido, na sua vida de vagalume, abaixou pra pegar um parafuso que caiu enquanto a bala passou no vulto de sua sorte e cravou no centro de uma folhinha do Sagrado Coração de Jesus, onde nunca deveria ter parado. Salú, como todo jagunço, é dado à crença profunda, e quando viu a presopopéia que fez, se benzeu mil vezes: " meu Deus, nunca errei bala em cabra nenhum e ainda fiz o crime de acertar no coração de Jesus. Não vou ser perdoado nunca!" Geraldim que era psicólogo diplomado com mil mulheres nas macegas da vida, percebendo a situação, aproveitou para tirar o grosso da fervura do caldo: "é que tenho reza forte, meu caro. Agora só tem uma saída pra você. Se ajoelha e pede perdão a mim também, que Deus vai te perdoar." Salú abaixou, beijou seus pés e deixou o dinheiro do mando no chão: "me perdoe seu moço, não sabia que os homen tava assim com você! O dinheiro é seu. Não quero este dinheiro amaldiçoado!" No outro dia Geraldim juntou tudo o que tinha, botou o dinheiro no fundo da mala. Era dinheiro de dar vinte anos de conserto em rádios velhos e partiu na primeira furreca que encontrou. Deu adeus ao roção onde entrou como Geraldim Rapidim e saiu rapidinho como Geraldão Ricardão. UNIVERSO OU DIVERSO Certo professor me afirmou categoricamente que o universo é finito. Vamos pensar um pouco! Respondi-lhe, no momento em que entrava um outro professor. Finito? Você tá louco? O universo é infinito! Replicou. Vamos pensar um pouco! Respondi outra vez. Como estávamos sentados em torno de uma mesa, perguntei-lhes: porque esta mesa é finita? Porque tem fim aqui na borda! respondeu um deles. Pois é, respondi-lhes, ela tem fim, porque em volta dela tem cadeiras. As cadeiras tem fim porque em volta delas tem as mesas dos computadores. Estas tem fim porque encostados nelas estão os armários, as paredes, as outras salas, etc. Todos tem um fim em comparação entre si. O que haverá depois do fim do universo para que ele tenha fim? E se for infinito como você (o outro) afirma? O que é uma coisa que não tem fim? Que experiência podemos efetuar com uma coisa infinita? O nosso modelo mental não alcança categorias para explicar racionalmente estas questões acerca do universo, porque nossas estruturas transcendentais da mente não tem modelos para gerenciar estas idéias, uma vez que os modelos mentais estão presos aos sentidos e para se compreender estes fenômenos seriam necessários outros sentidos. Durante nosso processo de evolução terrestre devido à inospitalidade ambiental nós desenvolvemos sentidos de adaptação ao meio. Talvez a intuição seja um sentido ainda em formação, que num futuro possa se abrir para novas compreensões do universo. BIN LADEN MORREU A notícia só não varreu os quatro cantos do planeta, por ele ser arredondado, mas percorreu pelos seus múltiplos infinitos polos. Bin Laden estava escondido numa caverna perto de uma aldeia afegã. Um jovem brincava do lado de fora da caverna fantasiado de diabo louco para assustar seus colegas. Quando Bin Laden saiu para respirar um ar mais puro e viu-se de frente com aquela criatura, tomou um susto enorme, pois pensou que o Satã Mor do Ocidente veio buscá-lo. O famoso terrorista não suportou o impacto desta impressão e morreu imediatamente. No mundo árabe foi imensa a dor de sua morte. Mas vamos ver o que aconteceu no mundo ocidental: Bush ficou nervosíssimo. Além de não ter sido ele o assassino, já contava o prejuízo que tomaria. Depois dos seus altos lucros com a queda das duas torres que propulsionaram os negócios familiares em termos de armamentos, seguros e petróleo, um acidente deste ocasionado sem sua manobra e estratégia, não se transformaria em lucros e sim em elevadíssimos prejuizos. Os fabricantes de armas se desesperaram. Se o estopim das guerras faleceu, como ficaria o depósito de armas fabricadas nos últimos dias? A família inglesa e os megainvestidores das bolsas tremeram em suas bases, pelo fato não ter sido previsto anteriormente. Maldito diabo adolescente afegão! Nos botecos brasileiros a reclamação foi geral. Como nós vamos justificar todas as cervejas e a saideira junto? Os donos de banca de jornal também ficaram muito preocupados, pois venderam muito neste dia, mas e os outros dias que virão? Só se consolaram ao pensar na situação que ficaram os jornais, as revistas e a mídia em geral. Os professores nas escolas, embarcados sabiamente no 171 da interdisciplinaridade, não teriam mais assunto a puxar, quando quisessem murcegar suas aulas. Psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, terapeutas, padres, pastores, vigários e vigaristas, todos no mesmo barco entraram em pânico. Diminuiria com certeza a clientela. Pessoas não bateriam mais às suas portas com manias de grandeza, de perseguição, com toc's, depressões, paranóias, esquizofrenias e mais uma série de eczemas mentais. E quando chegar o carnaval? Pensaram os comerciantes das ruelas sem taramelas. Outros mais religiosos jogaram fora seus porretes de bater em Judas no dia do Sábado de Aleluia. Até o mendigo da praça chorou de tristeza. Ele que não tinha nada mais a perder, não conseguiu deixar escapar meia dúzia de lágrimas (era tudo o que tinha). Ninguém mais apontaria o dedo para ele: olhe o BIN ali! Muitas garotas de programa entraram em parafusos. Jogaram fora suas fantasias do terrorista e com certeza diminuiria razoavelmente o número de clientes. Logo agora no ano politico? Bradaram os políticos tupiniquins deixando cair seus dólares sob as cuecas, ao se sentarem em seus piniquinhos de ouro. Se com BIN era ruim, sem BIN é pior! Suspirou o velho aposentado que só tinha dois assuntos a tratar com seu melhor amigo: baralho e BIN LADEN. Até dois garotos criativos na escola, ficaram tristes. Para burlar seus professores bolaram um novo jogo: cara seria BIN e coroa seria LADEN. Quando gritavam: BIN ou LADEN? Falavam rapidamente e os professores não percebiam que era um jogo de cara e coroa e ficavam satisfeitos, pois, enganados pensavam que o assunto era cultural. Mas a tristeza durou pouco tempo. Os donos do mundo não cochilam no sereno. Uma semana depois explodiu um café em Paris. Al Shafir assumiu o atentado. Todos respiraram aliviadamente. A IDADE DO HOMEM No meu texto "a idade do homem", eu escrevo que na natureza nada se perde, nada se cria, nada se transforma, enquanto que Lavoisier disse que na natureza nada se perde, nada se cria e tudo se transforma. Na realidade dá no mesmo e depende do ângulo em que você olhar. Aí está a velha antítese entre Parmênides e Heráclito, no Antigo e Vasto Mundo Grego. Só vou lhe fazer uma perguntinha para movê-lo a pensar: você, caro leitor, tem a certeza absoluta de que toda a transformação que você percebe é realmente um movimento cambiante ou estático? Veja que a análise do movimento faz parte da consciência objetiva racional do homem. Será que nós temos certeza absoluta da realidade da característica do movimento ou da aparente transformação que observamos na natureza?

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