Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
domingo, 22 de abril de 2012
MULHER RIU
sábado, 28 de maio de 2011ONÇA ATERRORIZA TODA A REGIÃO
O fundamento desta parábola é: seja uma pomba da paz e não uma onça do terror! Vamos lá?
Numa imensa região vivia uma onça do terror. Este felino desenvolveu todas as suas habilidades e capacidades para rapinar os animais mais fracos de sua região. Matava-os por inveja.
Com isto a maléfica pintada tornou-se o mito do terror no meio de todos os animais. Muitos destes pobres coitados não dormiam mais e nem comiam mais. A fila médica da coruja aumentava todos os dias, com a série de doenças psicossomáticas adquiridas pela perseguição, pelo medo, pela dissimulação, pela malvadez da fantasma maligna. Para aumentar mais seu poder, a onça afirmava que frequentava a casa da leoa e do leão pela porta do quintal e lá ia direto para a cozinha tomar café.
Mas as curvas das estradas tem suas surpresas, por maiores que sejam os holofotes do caminho.
Um envenenado espinho cravou-lhe em suas patas e ela caiu doente pela proliferação do veneno em seu corpo. Vendo-se de frente para o desarranjo da morte, pela doença e pela fome, ela pensou em fazer as pazes com todos os bichos, comendo alguns de vez em quando. Chamava-os para festas e etcéteras e tais, mas ninguém aparecia porque não eram tolos.
Abandonada, com fome e doente a perseguidora deu seu último suspiro. Os bichos só aproximaram de seu corpo, quando foram avisados pelos vermes do centro da terra.
O macaco, vestido de caçador, subiu sobre o seu enorme corpo e pediu ao tamanduá bandeira para tirar uma foto sua.
Todos os bichos fizeram cócegas em sua pança e foram embora.
Qual o significado desta parábola?
Vamos ser uma pomba da paz e não uma onça do terror. Se você comanda pessoas, trate-as bem, no mínimo como seres humanos. Não seja você responsavel pela insônia e doenças de várias pessoas, pois o universo também tem suas garras invisíveis e há quem conheça estes mistérios.
Aprendi muito com meus avós. Não desvie seus pés da fonte do Eterno. Ele é amor, paciência, compreensão, solidariedade e tudo o que há de bom. Meus avós aprenderam com meu bisavô, que carregava um livro sagrado dentro de um baú. Neste livro ensinava (entre outras coisas) que só o Eterno é o Uno. Só Ele é Deus. Nunca desviei meus passos deste caminho. Não sei de onde veio meu bisavô, nem me interessa escrever sobre seus perseguidores, mas sei que aqui ele encontrou um porto seguro para viver e passar para os seus (entre outras coisas) o amor ao Eterno Criador do Universo, o Uno.
Mesmo na última hora eu prefiro abraçar a verdade. Ame aos que trabalham ao seu lado, porque eles não te pertencem. Eles são apenas os teus irmãos.
A doença pode bater no umbral da porta de qualquer um. Porém, não há coisa mais triste do que ver uma pessoa doente e abandonada, porque foi um monstro vivo para várias pessoas. Mais lastimoso é ainda vê-la desesperada para juntar em sua volta um número imenso de pessoas, sabendo que embora a maior parte dos que trabalharam com ela, não lhe desejem mal nenhum e sintam a situação dramática que ela passa, mesmo assim não tem nenhuma vontade de estar ao seu lado fisicamente.
Portanto, seja uma pomba da paz e não uma onça morta, onde todos vão dançar sobre seu túmulo.
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 06:39 0 comentários Links para esta postagem
sábado, 21 de maio de 2011EXPLODIRAM O CASH E QUASE EXPLODIRAM UMA VELHINHA
A pequena fila do cash, caminhava lentamente e mexia como uma preguiça, mas num segundo, lá na sua frente, ou sua cabeça, deu um bote rápido, como uma cobra jararaca. A mulher digitou num flash de segundo e num lance manual de mágica, sacou mais rápido que John Wayne, saindo em passos de sete léguas e voltando mais depressa do que nunca, com as mãos na cabeça e dois homens com revólveres sobre ela, que sacaram mais rápido que Durango Kid nas antigas matinées de cinema. O mais rápido no gatilho é quem vence a parada no moderno faroeste. No antigo faroeste também era assim.
Os homens abaixaram imeditamente as portas de aço, aos gritos, "venham e fiquem aqui neste canto, pois vamos explodir os cashs!". As pessoas se amontoaram todas ao lado de uma balança, uns abraçados aos outros, tipo futebol americano.
Porém, uma velhinha retrucou: "moço, deixa eu tirar o meu dinheiro da aposentadoria primeiro!". "Fica tranquila, minha véia que nóis damu o dinheiro em dobro, véia!"
A explosão jogou latas pros quatro pontos cardiais do mundo.
A velhinha suspendeu os braços pra cima e bradou: "me valha meu querido São Benedito!"
Mal a porta de aço abriu e fechou por fora, todos abriram os olhos pra fora e por dentro. A velhinha contou com a ajuda de uma jovem e finalizou: "dois mil e quinhentos reais! Quatro meses em um só!" Total dos maços de dinheiro em suas mãos.
"Quatro meses, não!" Respondeu um senhor tremendo seu barrigão. "São cinco vezes, pois a senhora não recebeu a aposentadoria ainda!"
A velhinha retrucou: "Ah! É assim? De agora em diante vou fazer plantão em tudo que é cash por aí!"
"Pois escute, minha senhora, São Benedito não explode cash todo dia não!"
São Benedito coisa nenhuma, estes bandoleiros deveriam ser chamados de The Flash, para rimar com Adeus Cash, são todos os novos cangaceiros da modernidade.
Os antigos reis do cangaço, ou destemidos jagunços do passado faziam o sinal da cruz antes de cometerem seus crimes e distribuiam suas rapinagens robinhoodamente com todos os necessitados, os famigerados explorados pelos senhores de engenho, fazendeiros feudais cruéis dos brasis rurais. Eu pessoalmente conheci muitos pistoleiros e todos eles tinham o corpo fechado e protegido por algum patuá ou santo devoto.
Os modernos salteadores conjugam o sinal entre o pavio e a bucha de TNT. Trinitrotolueno sabotado entre os direitos de uso e regalia de uns e distribuição clandestina de outros.
Na época do enlatado, do pré cozido, do instantâneo, parece-me que dinheiro enlatado não dá certo de forma alguma. A não ser para uma velhinha...devota de São Benedito!" O milagre veio com atraso de oitenta anos de jejuns, orações, promessas e infinitas procissões.
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 07:25 0 comentários Links para esta postagem
quarta-feira, 18 de maio de 2011A CABEÇA DURA DA DITADURA
No tempo da Ditadura Militar/64 em diante, dizem os mais entendidos que a escolha dos presidentes era feita com apenas uma pergunta a ser respondida prontamente (aliás todos estavam de prontidão). Instruidos pela CIA, certamente seria escolhido o mais inteligente. O bruxo criador daquele sistema não-político (cujo nome não ouso falar, pois a palavra tem poder), montado numa mula, perguntou ao candidato a presidente da república: "Quantas patas tem este muar?" Em menos de uma hora, a resposta sibilou: "Seis pernas!".
O santo inquisidor olhou para baixo, do alto de sua montaria, contou, recontou e acrescentou: "Realmente, contando as duas de botas de cano largo, você acertou!"
No dia da posse, ele ordenou sob pena de degredo ou morte, a fixação do seguinte aviso na entrada do salão: "Se você for cego, sente-se na primeira fila da frente".
Este maldito cujo general, certo dia, no coração da cidade de São Paulo, em revista oficial (não era visita), viu uma placa no meio da rua, chamou o oficial do dia e perguntou: "Com ordem de quem, fundaram esta empresa estatal com o nome de EMOBRÁS?"
Ressalvo que nesta época o estado brasileiro era praticamente dono de tudo e todas as empresas estatais terminavam em BRÁS. Por insensato que pareça, os donos deste estado estatal, perdoem-me o pleonasmo, prendiam os democratas pois confundiam-nos com socialistas, se não entenderam, não se espantem, pois até hoje não consegui entender. O oficial abriu imediatamente uma investigação minuciosa, examinando todos os pormenores e pormaiores dos meandros da falida república. Não encontrando o autor do PROJETO ESTATAL EMOBRÁS, ele voltou ao centro de São Paulo, no mesmo local, onde estivera com o general-presidente. Aprendera com os mestres da espionagem americana, que todo bandido volta ao local do crime. Colocando em prática a sua árdua e secreta aprendizagem, conseguindo elevado posto no DOI-CODI.
Pensou, pensou, tirou um cigarro e fumou, para a seguinte dedução: "Se não foram os soviéticos, nem os castristas, nem os guevaristas, só pode ser estes jovens comunistas! São todos comunistas!"
Com sua farda verde, parecia zé carioca doente no poleiro, sentado na audaciosa placa "EM OBRAS".
No outro lado da praça, em letras garrafais, grafitado em um muro, estava a seguinte frase: "Proibido prender qualquer cidadão sem motivo algum, torturá-lo ou matá-lo. O governo não admite concorrência". Pelo exposto acima na dualidade entre estatização e perseguição aos comunistas, existia muita filosofia neste audacioso mural.
Deixando de lado o exagero e levando em conta uma época em que não tínhamos vontade nenhuma de sorrir, quando rolavam algumas histórias mirabolantes como esta, sentíamos que haviam frestas entre as venezianas, por onde passavam alguns focos de luz.
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 15:45 0 comentários Links para esta postagem
sexta-feira, 13 de maio de 2011ANOS DOURADOS? OU ANOS DE......?
Muitos ainda se lembram daqueles anos dourados em saudosos tempos dos cinemas; alguns no centro ou nas praças das cidades interioranas, outros nas ruas principais ou avenidas das grandes cidades. Em seus chamativos cartazes deslumbravam os mitos daquela época. Sabemos que a cor destes anos, no popular era cinza, da cor do chumbo dos tanques de guerra, dos fuzis apontados contra todos. Também era o verde dos fardados da nação assassinando a juventude distraída, aproveitando da penumbra após as seis, com uma lei terrorista debaixo do sovaco verde da farda, simplesmente chamada ato. Ato de atrocidades contra inocentes e democratas, denominado número cinco. O número de dedos das mãos. Mãos dos algozes, dos sni's desatinados, dos dedos duros dos militas, dos carrascos da nação tropicaliente.
A cor de ouro destes anos, muito dela surgia do refúgio para os sonhos, não para os delírios, pois para estes somente os porões da ditadura tinham seus meandros e seus fantasmas, arrastando seus dentes, suas garras e suas correntes pelos calabouços do exército. Os generais davam mais importância aos pés do que às cabeças, por isto, todos eles andavam de botas engraxadas a verniz, ensaiavam passos de ganso ou de cisne e supervalorizavam as marchas militares. As mentes pensantes seriam dispensadas de seus caminhos; as cabeças rolariam nos cadafalsos, melhor seriam se fossem de poetas, atores, escritores, jornalistas, dramaturgos e artistas em geral. De que valeria um quadro, um poema, uma música, uma obra artística se para a classe militar, toda a beleza estava no compasso da marcha e no movimento hiperbólico da continência?
Enterrado naquela poltrona diante do panorama techinicolor, nosso cadáver soerguido das ruas, do combate, da perseguição, afundava-se e no mergulho macio de seus tecidos, relaxava com os olhos fixos na tela planespetacular, como fuga ou tentativa de esconder-se frente a frente com outra realidade, mais anatômica e divertida, naqueles disputados metros quadrados do salão.
Fellini, Buñuel, Pasolini, Astaire, Woody Allen, Hitchcoock, Chaplin, Eastwood, Kazan, Koppola, Bergman, Capra, Antonioni, Polanski, Welles, Eisenstein, De Sica, Leone, Scorsese, Visconti, Huston e uma plêiada de atores e atrizes mergulhando na penumbra da memória.
Nem toda a nudez era castigada naquele recinto, onde talvez muitos encontravam o único espaço condizente para embalar várias noites perdidas na diagnose da crueldade dos senhores do país, protótipos dos antigos senhores coloniais de engenho, acostumadas à chibata em punho de seus capatazes robóticos.
Vindas de reinos distantes, as películas passavam quase sempre despercebidas dos censores analfabetos e ridículos, filhos pródigos dos generais poderosos; pois após se fartarem de brutais atrocidades, com todas as regalias do poder, voltavam para os quartéis, onde se lambusavam da glória indigesta de suas matanças.
Assim, chamou atenção naquela época, um filme, onde num dado momento, a atriz francesa, linda e esguia, olhava com um semblante felino para a plateia, enquanto retirava suas roupas, acompanhada por um som de orquestra com fundo romântico.
O cinema lotou naquele dia. O suspense perfumava o ar e abafava o cheiro insuportavel dos banheiros, bailando entre os corredores. Neste momento não era possivel o incômodo do nojento lanterninha, pois plasmava em um canto com os olhos grudados no corpo nú dançando na tela.
Em uníssono a plateia mergulhava seu inconsciente na beleza feminina e no resgate de todos os seus anseios internos, quando um homem foi se levantando devagar, embora centenas vozes sussurravam aquele abafado "abaixo aí seu sacana!", mas foi se levantando, levantando da primeira fileira perto do palco e virando de frente para aquela multidão atônita, urrou com todas as forças de seus pulmões: "Isto é que é mulher, minha gente, não é aqueles bagulhos que vocês têm em casa!"
Não sei o que sobrou daquele homem, de seu grito fronteiriço entre a independência e a morte, mas tenho certeza absoluta e plena, de uma presença ocular, fugindo na intuição do salve-se quem puder, por entre socos e pontapés, para ser uma testemunha histórica do que restou dos cacos do antigo cinema, além de todas as lembranças nuas e cruas.
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 16:13 0 comentários Links para esta postagem
terça-feira, 10 de maio de 2011PARA GANHAR DINHEIRO É PRECISO TER TINO COMERCIAL
Os dois amigos estavam em frente ao prédio comercial, onde começa o diálogo:
"Aqui já foi uma farmácia. Pela posição do prédio, você vê! Não dá para vender remédios. Ninguém comprava quase nada. O sol bate de frente e as pessoas não querem comprar remédios cozidos no forno. Depois colocaram uma sapataria e os ônibus fazem a curva bem em ali. Levantam uma poeira danada. Sapato sujo nem sapo que não lava o pé não quer! Em seguida alugaram e estabeleceram um açougue. As carnes já estavam convidando os urubús para dar uma voadinha sobre elas. Fecharam em dois meses. Chegaram duas mulheres, olharam, revistaram e no dia seguinte já colocavam seus produtos de beleza à venda. Não sei se o povo daqui é feio mesmo, mas os esmaltes secaram dentro dos vidros e os pentes ficaram carecas. Elas se mandaram três meses depois.
Casas de Festas veio em sequência. Tinham tudo para aniversário de crianças, só não tinha mães para alugar nada, nem comprar nada. Em quatro meses partiram sem deixar pistas e nem pagar aluguel. Depois chegou a vez da Oficina Eletrônica. No preço baixo dos aparelhos eletrônicos nas lojas, com prestações de se perder a vista, o sujeito baixou as portas e caiu no mundo!"
"Mas não te interrompendo, o que está faltando aqui é tino comercial!" "Como assim? O pessoal trabalhava duro, mas nada dava certo aqui!"
"Para ganhar dinheiro é precisos ter tino comercial, meu irmão!"
"Já colocaram aqui uma Igreja?" "Não! Ainda não!" "Tá vendo? Esta gente não sabe ganhar dinheiro! Igreja é o que cola aqui. Igreja é a coisa mais fácil de se botar, meu caro! É só dar uma caiada no cômodo, arrumar umas cadeiras de plástico daquelas bem baratinhas mesmo, colocar uma mesa para altar... em seguida contratar um sujeito bom de papo para dirigir o culto, meu! Logo de solapa, ele ganhará o apelido de Bispo! Até o nome é econômico: B...I...S...P...O! Ele nem precisa ter muito estudo não! Basta entender um pouco de Bíblia e saber falar bem! Ter jeito pra levar o povo no papo de aranha! Nada de coral no início. É só colocar uma caixa de som e um toca-CD-baratex-piratex e deixa o povo entrar em delírio e pirar! Você só trabalha duas horas por dia e pronto, bota o saco de dinheiro na cacunda e vai dormir um sono realmente cifrático. Cada dia você inventa um título: Dia de arrancar demônios, Dia de arrumar seu par, Dia de descarrego da miséria, Dia de apaziguar a sogra, Dia de saúde do casal, Dia de encontrar a porta do céu aberta, Dia do vício jamais, etc. Igreja é tão fácil e lucrativo, pois até o nome ajuda. Numa farmácia você não pode colocar o nome de Farmácia Cristã, pois Cristo curava sem usar remédios. Numa sapataria você não pode registrar como Sapataria dos Doze Apóstolos, pois os apóstolos andavam de sandálias e de sandálias só, não vive uma sapataria. Um açougue não rima com uma placa Açougue dos Pentecostes e nem vou te explicar o porquê! Salão de Beleza não fica bem como Salão do Reino de Deus, por exemplo! Uma loja de Casa de Festas não combina com Casas de Festas do Calvário! Uma Oficina Eletrônica não condiz com Oficina Eletrônica Sermão da Montanha, pois Jesus não usava microfone, nem alto falante! Tá vendo, meu? Falta tino comercial nesta gente! Não tem negócio melhor do que Igreja! Até pra botar o nome não dá trabalho. O dinheiro entra e não sai nota fiscal! O que vocês precisam é de ter tino comercial!"
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 15:49 0 comentários Links para esta postagem
sábado, 7 de maio de 2011TERCEIRIZAÇÃO DA PACIÊNCIA (EM NOME DO PAI, DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO!)
O bicho danado do Prefeito, acomodado em sua cadeira giratória, entre uma rodada e outra sob o rastro da botina, atende e desatende seu telefone. Disca e redisca e numa destas pirulantragens, uma voz do outro lado meio romântica e mais ou menos melancia, lá da capital: "Se você quiser o fax, disque 1, se você quiser popupança, disque 2, se for investimento, disque 3, se quiser falar com uma de nossas atendentes, disque 4..." O prefeito interfere: "Escute minha filha, você tem uma voz maravilhosa!..." A boneca eletrônica continua: "Se você..... disque 5.... se você...disque 6....." "Ei minha filha, fale seu nome para mim, aposto que é lindo como...." "Se você quiser o fax, disque 1, se você quiser poupança, disque 2.." "Escute minha amada, eu quero te conhecer! Quero me encontrar com você, porque você...." "Se você quer falar...." "Ô teimosa, se você engoliu um disco, vomite ele e me dê seu nome, porque gostei demais de sua voz!" "Se for investimento, disque 3, se quiser falar...." "Ô sua filha de u... p.... vai à p. q. p.!!!!"
Terceirizaram tudo! No caso do prefeito, ele se deu mal, porque secretária eletrônica não terceiriza o sexo! Mas se você tiver um problema com..........terceirize primeiro a sua paciência, para depois tentar ligar e começar o lenga-lenga e os zigue-zagues de apertar botões sem cessar. Suponhamos que se enquadre discando 2. Em seguida, eles te conduzem a outro labirinto de discagem e lá se foi para o espaço, a ponta do fio de Ariadne! Porém, se você for sanfoneiro de oito baixos, com certeza não se incomodará bastante em apertar teclas para produzir sons diversos, alguns tão sonsos de não levar a lugar algum. Ou quem sabe toque trombone e tenha agilidade digital e mental, mas aviso: não adianta botar a boca no trombone, pois não resolve! Outros colocam uma música de fundo, para no caso de você cair desmaiado, caia bem no fundo de sua consciência e não volte nunca ao teclado com o mesmo eco insoluvel.
Outras vezes é possivel ficar ouvindo em milhares de minutos tudo de bom que a empresa tenha (menos atendê-lo em suas necessidades), talvez para compensar as lágrimas caídas pela decepção do serviço. No caso de você ser exímio dançarino de rock, não vai resolver, pois eles tocarão jazz ou vice-versa! São excelentes mestres do disfarce! Encontrá-los? Não possuem endereço, são fantasmas digitais! Nem Sherlock Holmes os encontrará! O capitalismo passou de selvagem para a clandestinidade matrix da sabotagem do cliente, fazendo-o refém eletrônico pela sonoridade enganosa e estúpida do telefalavocêescuta.
A terceirização ou outsourcing precisa de ser analisada com mais rigor e inteligência. Suponhamos uma rodoviária limpa ou um aeroporto brilhando por dentro (menos por fora, mas isto é outro assunto), à primeira vista é fantástico, maravilhoso.
Os bancos reluzem pelas avenidas do Brasil, como jóias ou diamantes ao sol. Vamos pensar um pouco? Apenas uma perguntinha singela: quanto ganham estes funcionários terceirizados? Não precisa de responder, pois todos já sabem: eles são escravos uniformizados! Passaram como raios foscos de luz, por entre as venezianas de um treze de maio alforriado. A terceirização veio para massacrar a mão de obra, com a redução de custos.
O seu avanço, acaba por descaracterizar as próprias empresas, pois chega o momento em que elas deterioram sua imagem pública, passando a virar piada popular. Você só consegue levar isto numa boa, se já foi ator de psicodrama ou leitor de Franz Kafka, principalmente do livro "O Processo", ou no caso de "Metamorfose", ter um segundo turno, onde após barata, se transforme num dragão e cuspa lagartos e escorpiões.
Mas não queira ser esperto como um homem-aranha, pois após as relações a aranha mata e come o macho!
Vejam por onde anda o nosso capitalismo! O nosso sistema vai implodir por si mesmo. Com a massificação da terceirização, chegará um momento, um ponto "X" de miséria popular, onde ninguém poderá comprar mais nada, por tão pouco e pequeno o salário...... o capitalismo murchará de dentro pra fora!
Este assunto é tão abrangente, ao nivel de entrar no campo da discussão sobre a violência. O que é violência? Será violência esta onde se aloja um assalto, um crime urbano, um desequilíbrio proveniente do uso da drogas, uma briga de rua, um tiroteio num bar da esquina?
Não!!! Violência é o impedimento do cidadão ter acesso aos seus direitos humanos de existir com decência. Quem são os culpados? O Governo com a alta cúpula do País em primeiro lugar e em segundo lugar as empresas, incluindo empresários e industriais, visando o maior lucro possivel, sem levar em conta o ser humano como um todo!
A violência chega a um patamar tão profundo, atingindo de imediato, também àqueles indivíduos com poderes de compra e de acesso aos produtos do mercado. Estes, quando se vêem lesados ou enganados, são obrigados a ouvir uma boneca eletrônica balbuciando números ou um indivído terceirizado, terceirizando sua paciência ao infinito, com uma conversa de crochê, costurando mulambos. Digo de antemão, não estou criticando o terceirizado. Estou reinvidicando respeito e dignidade para ele ser bem treinado, bem formado, bem pago, para abolir este sofrimento, esta humilhação, de sermos bem enganados, bem iludidos, bem ludibriados, pelos novos piratas do século XXI: os insuportaveis terceirizadores!
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 17:30 0 comentários Links para esta postagem
sexta-feira, 6 de maio de 2011A GUERRA DOS MUROS OU CONFLITO ENTRE DOIS IDIOTAS
Começarei primeiro descrevendo Manuel Pedro. Quando chegou do Ceará, para ganhar dinheiro de velhinhas ingênuas e caridosas, ele engolia giletes na praça pública. Instalou-se na pensão de DªMartha e após três meses sem pagar um, devido a tamanha insistência da pobre senhora, convocou todos os pensionistas para o salão de refeições, hipnotizou-os e partindo em direção à cristaleira, comeu seus dois vidros frontais e gritou: "Ou DªMartha me perdoa minha dívida trimestral, ou como sua louçaria francesa!" DªMartha, sob efeito de hipnose assinou um recibo, com o qual ele partiu, para nunca mais voltar. Porém, com o tempo, fazendo acrobacias e virando-se do avesso, conseguiu juntar um bom dinheiro e construir uma linda casa.
Agora descreverei Francisco Paulo. Este chegou do Piauí, engolindo fogo e cuspindo bolas de soprar, sob as lágrimas das mamães choronas e os olhos arregalados de suas criancinhas atônitas. Paulão, diante de uma platéia de freiras, sacerdotes e seminaristas brancos de tanto se masturbar, deu um pulo tão rápido em forma de parafuso allen, ao ponto de sair de dentro de sua roupa e apresentar-se nú como Peladão diante dos sorrisos. Algumas freiras entraram em delirium tremulum para o resto de sua vida, quando viram o badalo e a grossura da corda.
Também ganhou muito dinheiro com suas acrobaçalhadas e construiu uma senhora casa, em frente à do Pedrão.
No entanto, os dois eram praticamente rivais e disputavam entre si o tamanho de sua fama.
Ambos construiram um imenso muro, praticamente um igual ao outro. Um dia, Peladão, quer dizer Paulão, resolveu ultrapassar Vinícius de Moraes e escreveu bem grande na frente do seu muro: "Não me desculpo das feias, pois a beleza é dispensavel!" Pedrão, não perdeu tempo e lascou uma outra frase em seu muro: "Mas uma pedrada é indispensavel!"
Paulão vendo a resposta do amigo, mandou fumo: "Com esta pedra construirei um Castelo!"
Pedro retrucou: "Neste Castelo morará uma vampira!"
Paulão despachou: "Matarei a vampira e deixarei a feia morar nele!"
Pedrão mandou bala: "Mas a vampira já tinha chupado o sangue dela!"
Paulão não perdeu tempo: "Deixo ela chupar meu sangue e vivo ao lado dela!"
Pedrão dinamitou: "Se você virar vampiro lhe enfio a minha estaca!"
Paulão não tendo mais nada a escrever, sendo fera em acrobacias, resolver defecar no muro do Pedrão e dando sete vezes sete vezes setenta vezes sete giros no ar, explodiu sua merenda no muro do outro lado.
No outro dia, Pedrão acordou e vendo aquela borrada no muro, observou, observou e da profundidade de sua experiência mundana, fez seus últimos versos: "Por que você não defecou no centro? Você só defecou fora! Ou você tem a bunda fora do centro ou tem uma das bandas torta!"
Se Paulão começou a guerra com uns versos, delimitou seu destino com os versos do lado de lá. A sorte do Paulão era o tamanho de seu terreno, dando fundos para uma outra rua. Dali ele embarcou sua mudança para sempre, deixando a casa à venda por conta de uma imobiliária.
Pedrão, repintou seu muro e trancafiou-se dentro de casa. O último feito de um herói de rua é vencer seu arquiinimigo. Batman que o diga!
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 15:28 0 comentários Links para esta postagem
quarta-feira, 4 de maio de 2011OBAMA ROUBOU A MULHER DO JACINTO PINTO
Quando o assunto é Bin Laden o presunto é Obama. Bins e Obá's tem mil sósias pelos brasis adentro. Eu já vi uma porção deles em diversos lugares. Já vi Bin (hoje posso falar assim, como disse anteriormente, pois nossa intimidade aumentou muito, depois de sua morte!) vendendo bijuterias na beira da praia e já vi Obá dando um sarro numa morena, perto dos entulhos de uma construção, obrigando-me a gritar com a boca em forma de moringa: "não aperta ela mais, se não a calcinha dela vai sair e o coração deve voltar para a boca!" Depois percebi que ela não estava de cabeça para baixo e sua calcinha já tinha caido e que o coração não tinha saído pela boca, pois havia me enganado com um laço enfeitado na sua cabeça! Se você não entendeu a cena, considere-a melô dramática, pois eu também fiquei confuso, com aquele salto de sapato apontando para mim, que até então pensara ser seu dedo indicador da mão direita. Ele não me obedeceu (bichinho ruim de jogo) e ainda fez dedo para mim, aquele mesmo dedo que ele aponta na televisão pra vocês.
Vamos ver o fato dado naquele distante povoado tranquilo da silva, onde o relógio do tempo rezava uma ladainha de horas, pois tudo manseava devagarzinho. O rio margeava em manso deslizar, a cidadezinha pacata e ingênua. Os animais pastavam em centenárias gerações, por sucessivos pastos verdes daquela terra natal. Brisa na primavera, manga e goiaba no outono, névoa no inverno, continuava o café adoçado a garapa no verão. Os porcos resmungavam cabisbaixos as repetições de banana d'água com inhame, sem a mandioca nossa de cada dia, agora rendendo farinha na associação.
Chegou um ventão daqueles baitão de fazer jequitibá bocejar na copa, trazendo em seu abdomem um jornal caido do trem. Dona Doca arrancou-o do arame farpado, pendurado entre lençóis. Na página da frente em um sorriso afroamericano quarado ao sol, ele! Quem? Ele! Quem??????? BARACK OBAMA!!!!
Menos para Dona Doca. "Olha aqui Luzia, o filho da Madalena. Tá lembrada quando ela deu ele pros outros? Isto dá léguas de anos, mas é ele mesmo!"
"Nossa Dorca, você tem razão. Até os sulcos de vagem em volta da boca da família Pinto, é igual! Vem cá minha filha Ana, você que já estuda um beabá mais ilustrado, vem ver ele aqui. Você era pequenininha quando te contei este caso, ele é até aparentado com nós. O pai dele trazia uma égua pra cruzar com o pordo do Jão, mas a égua gostava mesmo é do alazão do Juca, mas o pordo do Jão com duas dúzias de mordida na nuca dela, ela não arresistia e virava os zóio pra vê Nosso Sinhô"
"Não mãe não é ele não! Este aí é o presidente dos EUA! Eu já vi ele num livro lá na escola!" "Ah! filha, deixe de besteira. Quem é este véio brancão aqui do lado dele?" "Mamãe eu acho que é gente graúda lá da terra dele" "É gente da CIA" "Só se for gente do Ziza! Ah! minha filha, me engana que eu gosto! É daqueles homens branco que me lembro. É o filho da Madalena mesmo. Ela deu pros homens branco que vieram do estrangeiro pra cá. Eles pensaram que debaixo do angú da Benedita tinha carne. Se lembra Doca? Deram uns dola e futucaram o pasto da Benedita todo. Mexeram na malacacheta da Benedita até onde não dava mais. Furaram, furaram, furaram e foram embora sem achar ouro. Levaram o menino dado da Madalena. Falaram que lá de onde eles eram o menino ia ter de tudo. Vira o jornal pra gente ver o resto Doca. Nossa! É melhor nós ficar quieto Doca. Olha a muié dele ali. Se a Madalena ver ela morre do coração. Seu fio cresceu e virou ladrão de muié. Então foi ele que roubou a muié do Jacinto, meu Deus. Prima dele! Esta aí é a muié do Jacinto. Magra e alta que nem taquara espichada. Era muié de forró, de esfregar o traseiro na sanfona de quatro baixo do Mané Jibóia. É a Selma sim. Vamos ficar quieto que Jacinto é jagunço do dedo certo. Ela gritava Jacinto Pinto de noite e de dia foi fugida, não dá prá entender. Lembra, num domingo? Ele chegou de espreita, pois conhecia este lugar e levou ela que nem a pintada pega as franga no terreiro. Ana joga este jornal no rio!".
OBAMA deslizou seu sorriso rio abaixo e caiu no redemoinho do meio, rodopiando entre os bagres e os lambaris; passando como um ladrão de mulher nas rodinhas de fofocas interioranas.
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 16:43 0 comentários Links para esta postagem
segunda-feira, 2 de maio de 2011BIN LADEN MORREU? SIM, MAS DE SUSTO!!!!!
A notícia só não varreu os quatro cantos do planeta, por ele ser arredondado, mas percorreu pelos seus múltiplos infinitos polos. Bin Laden estava escondido numa caverna perto de uma aldeia afegã. Um jovem brincava do lado de fora da caverna fantasiado de diabo louco, com uma varinha na mão parecendo um pequeno tridente infernical, para assustar seus colegas. Quando Bin Laden saiu para respirar um ar mais puro e viu-se de frente com aquela criatura, tomou um susto enorme, pois pensou que o Satã Mor do Ocidente veio buscá-lo. O famoso terrorista não suportou o impacto desta impressão e morreu imediatamente. Como a CIA quisesse ou não, carregaria a culpa pela sua morte, combinou com um diretor religioso de hollywood e montaram uma mega operação, acrescentando duas atrizes bêbadas e tresloucadas, como escudos humanos para assumir historicamente a morte.
O menino afegão também sofreu sérias consequências neurológicas, pois mesmo fantasiado de satanás, assustou-se demais com aquele ser inusitado saindo das entranhas da montanha. Aprendeu para sempre a lição: não se deve futucar o diabo com vara curta. Posso botar a boca no trombone e dizer que morreu o Bin! Agora depois dele morto, aumentou consideravelmente a nossa intimidade!
No mundo árabe foi imensa a dor de sua morte. Mas vamos ver o que aconteceu no mundo ocidental: Bush ficou nervosíssimo. Além de não ter sido ele o assassino, já contava o prejuízo que tomaria. Depois dos seus altos lucros com a queda das duas torres que propulsionaram os negócios familiares em termos de armamentos, seguros e petróleo, um acidente deste ocasionado sem sua manobra e estratégia, não se transformaria em lucros e sim em elevadíssimos prejuizos. Seu aforismo principal poderia falhar: "O que é meu, é meu; o que é seu vai ser meu!"
Obama chorou tanto que escorregou num mar de lama! Aliás o mar de lamas...(cala-te boca!) Vou sair para dar uma espiadinha lá fora e te contar um segredo: os filhotes do iluminismo, a tam tam matou três netinhos do Kadaf! Todos os filhos do esclarecimento, ou do século das luzes(sec XVIII), foram criados com a Bíblia Sagrada debaixo dos braços, mas empinando o nariz da razão surrealística dos três poderes... o homem tem petróleo, não é? Tem ou não tem? Tinha! Voltamos agora ao assunto principal sobre o BIN LADEN que morreu de susto, pois estava com a vista embaçada debaixo do turbante e aquele moleque afegão, ah! moleque safado!!! Botou todos os agentes secretos debaixo dos braços. Os agentes dos últimos tempos estavam tão secretos que passaram a vigiar-se a si mesmos, em forma de dois em um de dupla identidade. Suas autoespionagens ensinuou-lhes a perseguir na ponta do pé as próprias sombras, chegando dois deles a aprisioná-las e trocar-se de sombras para enganarem-se a si mesmos.
Os fabricantes de armas se desesperaram. Se o estopim das guerras faleceu, como ficaria o depósito de armas fabricadas nos últimos dias?
A família inglesa e os megainvestidores das bolsas tremeram em suas bases, pelo fato não ter sido previsto anteriormente. Nos botecos brasileiros a reclamação foi geral. Como nós vamos justificar todas as cervejas e a saideira junto? Os donos de banca de jornal também ficaram muito preocupados, pois venderam muito neste dia, mas e os outros dias que virão? Só se consolaram ao pensar na situação que ficaram os jornais, as revistas e a mídia em geral.
Os professores nas escolas, embarcados sabiamente no 171 da interdisciplinaridade, não teriam mais assunto a puxar, quando quisessem murcegar suas aulas.
Psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, terapeutas, padres, pastores, vigários e vigaristas, todos no mesmo barco entraram em pânico. Diminuiria com certeza a clientela. Pessoas não bateriam mais às suas portas com manias de grandeza, de perseguição, com toc's, depressões, paranóias, esquizofrenias e mais uma série de eczemas mentais.
E quando chegar o carnaval? Pensaram os comerciantes das ruelas sem taramelas. Outros mais religiosos jogaram fora seus porretes de bater em Judas no dia do Sábado de Aleluia.
Até o mendigo da praça chorou de tristeza. Ele que não tinha nada mais a perder, não conseguiu deixar escapar meia dúzia de lágrimas (era tudo o que tinha). Ninguém mais apontaria o dedo para ele: olhe o BIN ali!
Muitas garotas de programa entraram em parafusos. Jogaram fora suas fantasias do terrorista e com certeza diminuiria razoavelmente o número de clientes.
Logo agora no pré-ano politico? Bradaram os políticos tupiniquins deixando cair seus dólares sob as cuecas, ao se sentarem em seus piniquinhos de ouro.
Se com BIN era ruim, sem BIN é pior! Suspirou o velho aposentado que só tinha dois assuntos a tratar com seu melhor amigo: baralho e BIN LADEN.
Até dois garotos criativos na escola, ficaram tristes. Para burlar seus professores bolaram um novo jogo: cara seria BIN e coroa seria LADEN. Quando gritavam: BIN ou LADEN? Falavam rapidamente e os professores não percebiam que era um jogo de cara e coroa e ficavam satisfeitos, pois, enganados pensavam que o assunto era cultural.
Mas a tristeza durou pouco tempo. Os donos do mundo não cochilam no sereno. Uma semana depois explodiu um café em Paris. Al Shafir assumiu o atentado. Todos respiraram aliviadamente.
Outro bêbado afirmou: "Começou o Bing Bang por todos os Ladens!"
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domingo, 1 de maio de 2011MISTÉRIO ENTRE DOIS: KHRONOS OU KAIRÓS?
Lucas encontrava-se de vez em quando com ela. Melhor dizendo: passavam um pelo outro e às vezes paravam para falar alguma coisa: traballho, natureza, lazer ou "preciso de ver meus pais".
Uma beleza reluzia em seus lábios entreabertos de princesa e seu olhar esparzindo um festival de imagens e nuances na paisagem. Era uma ninfa solta no vai e vém do acaso, ou quem sabe do ocaso, pois quando a via, ele entrava em delírio e as horas envolviam-se na surpresa da tarde caindo.
Um belo dia, acordou cedo e foi à praia fazer sua caminhada, tomar seu banho e imaginar sua vida. Na volta, pela calçada de uma rua lateral, ela vinha, na riqueza de sua simplicidade e na nobreza de seu semblante meigo e sereno.
"Oi, tanto tempo, einh?" "São as viagens. Tenho viajado muito!"
Lucas olhou profundamente em seus olhos e arriscou: "O que há por detrás da superfície? Existe algo a mais além da procura de todos, da matéria, do prazer momentâneo?"
Ela olhou eternos segundos em seu olhar. Segundos reveladores de sua alma nobre e confiante num reino mais profundo, além das camadas deste mundo terreno e imediato.
Lucas respirou profundamente. Pela primeira vez encontrou alguém ao nível de sua forma de pensar. Um ser conhecedor do sentido maior desta existência.
Mas Lucas vinha da praia e ela? Ela ia para a praia. Lucas deu um breve adeus, recebeu seu sorriso no íntimo de sua alma e foi para casa.
Lucas escrevia contos surreais. Criava histórias do reino do absurdo. Uma forma de navegar em um universo paralelo, onde o impossivel seria viável, em um lugar/tempo facilitador do milagre e do mistério.
Mas não parava de pensar em sua deusa. Ela era diferente sim, de todas as mulheres do planeta. Ela não era simplesmente uma outra.
Lucas decidiu voltar para procurá-la na praia. Ao entrar na mesma rua, ele vive o inverso. Ela vem em seu encontro: "Você está indo de novo para a praia? Eu estou voltando para casa!"
Lucas mal conseguiu falar. Como dizer para ela a verdade? Como revelar-lhe o sentido de sua volta? Não conseguia imaginar-se ele, vivendo um conto, como nunca escrevera.
Balbuciando ele falou: "Vou voltar e conversar um pouco mais com você!"
Num determinado momento ele parou e disse: "Um dia vou dizer-lhe algo sobre hoje!"
Foram andando e conversando. Próximos à residência dela, ele arriscou:
"Você já sabe da imensa realidade por baixo da aparência externa das coisas. E sobre a coincidência? Veja, estava em casa e decidi encontrar-me com você lá na praia. Só depois de nos reencontrarmos no mesmo lugar eu pensei: como não duvidei de reencontrá-la? Ora, a praia é muito extensa. Está cheia de gente. Não havia dúvidas em mim, de revê-la!"
Então ela disse-lhe: "Certas coincidências não são coincidências!"
Despediu-se de novo e prometeram voltar à praia um dia para continuar este sublime diálogo.
Lucas volta e pergunta a si mesmo: "Se não é uma coincidência, o que será então?"
Uma voz falou em seu espírito: "Meu amigo, siga em frente, pois isto é sincronia! Quando isto acontece, marca a diferença. Os antigos gregos possuiam duas formas para caracterizar o tempo: Khronos e Kairós. Khronos é o tempo das horas. Nele vive, trabalha, come, dorme e pensa estar acordando, o homem comum. Nesta modalidade de tempo, pode haver de tudo: coincidência, dissidência, etc. Porém, Kairós é o tempo carimbado pela passagem, pela mudança, pela marca inesquecível. Ele traz a diferença. Demonstra uma modificação de rumo a partir daquele momento. Em Kairós é possivel os envolvidos falarem do antes e do depois. Kairós é o mistério da nova existência. Do fato novo em sua vida. Nesta espécie de tempo, não entra a coincidência. Ele deixa um vínculo entre as pessoas. Depois elas recontam e revivem este momento várias vezes, pois ele pode ser celebrado e comemorado por toda a existência. Kairós é o tempo superior provido de sincronia."
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 12:56 0 comentários Links para esta postagem
sábado, 30 de abril de 2011O ENCONTRO DOS BANIDOS
Primeiro surgiu no céu uma imensa luz, abrindo-se em pétalas de luminárias, como a Rosa de Saron há mais ou menos 30.000 anos luzes do centro de nossa galáxia (nossa! 300.000 quilômetros por segundo de cada segundo de 30.000 anos dos nossos, não consigo imaginar!); pois bem, não divaguemos, pois é onde está nosso sistema solar. Depois cada pétala desta luminosidade caiu sobre as almas dos esquecidos, enviando-lhes uma mensagem: "Sábado, vocês se encontrarão no lugar X, para apresentar todas as suas lembranças!"
Era uma segunda-feira de inverno, mas para eles pouca diferença fazia entre o dia da semana ou a estação. Encontro marcado para tamanha revelação, não perderiam jamais!
O vale estava gélido e um branco de neve iluminado pela claridade da lua, tornava o ambiente mais receptivo e acalentador. Os exilados foram chegando aos poucos e sentando-se em troncos de árvores caídos ao chão, esperando pelo último; calados e com os olhos fixos no bosque ao redor.
"Pronto, quem é o primeiro a falar?" Levantou-se um cinquentão, enfiou a mão no bolso: " Eu trouxe para mostrar a vocês, a minha lembrança guardada para sempre!" E abrindo as mãos no ar, todos viram em outra dimensão o último abraço dado por seu pai, em sua despedida! "Este momento carrego pela vida! Meu pai, meu símbolo, não sai de minha mente!"
O segundo, muito pálido e magro, abre um envelope e mostra um retrato: "Veja como ela era formosa. Tanto tempo faz, não me lembro a quantidade de anos, mas trouxe comigo este olhar frio e distante, tão diferente do primeiro olhar, quando nos entreolhamos na juventude. Levo-o para sempre. Não há prótese de imaginação capaz de amparar o passado amputado!"
O terceiro continua sentado, apenas balbucia: "Não sei o motivo do abandono, para meu desepero ontológico, vivi até hoje neste período de mutação e abrindo a camisa mostra no peito uma tatuagem feita em sua mocidade. No dia da confecção deste símbolo, na volta para casa, só vi cinzas!" Como o singular da ausência atravessa a generalidade da existência!
O quarto levantou-se, num esforço impressionante para falar, mas apenas gaguejou: "Só só só con con sssig goo lemm brrarrr quaaanddo meuuu paadraaastooo mmme dddeuuu umm taappa naaa bboccca! Nuuunnncccaaa maaaiss connseeeguuiii faallarr. Fuuiii vvviveeer com uuuummma ttittittiaaa e deepoiss preeeferri mmorrarrr nass ruuuaaaas!!!!"
Interessante, como a linguagem corporizada na fala, revela e encarna a historicidade de um fato, desde sua origem.
A quinta pessoa, uma mulher, cabelos sem pentear, roupas longas à moda hippie woodstock: "Trago esta expressão de espanto e terror! É minha última recordação. Tenho na alma vazia uma pergunta sem resposta: sobrou alguma coisa depois do orgasmo?"
A sexta pessoa, outra mulher, porém, diferente, bem vestida, madame, bolsa na moda, sapatos altos de último estilo, óculos escuros sobre o alto da cabeça, educação francesa: "Trago também o vazio. Não vivia a qualidade. Vivia a quantidade. Festas, orgias, bailes de máscaras, tive de tudo nesta existência. No outro dia vinha a dor de cabeça, a frustação, a angústia, o desespero, a ansiedade. Como poderia ser feliz uma noite inteira para mergulhar no fundo do poço de uma mansão de zona nobre da cidade, com vidraças escancarando hipérboles para o infinito?"
O sétimo homem, vestia roupas de mago e sob seu olhar de bondade e ternura, numa expressão sacerdotal, apontou uma estrela no céu: "Aquela estrela, estão vendo aquela estrela? Expulsaram-me do convento, simplesmente por ter dito, ser o universo infinito! De minha cela conventicular, olhei pela última vez o céu, enquanto ela reluzia para mim. Saí cabisbaixo, sem me despedir daqueles companheiros de tantos anos. Aquela estrela me enviou uma mensagem: daqui vos contemplo, como contemplei Buda, Zoroastro, Moisés, Sócrates, Cristo e todos os grandes seres habitantes de seu planeta. O coração só é grande se o comportamento não é medíocre. Tão imenso o universo, merece uma expansão do espírito. Só se produz cultura, quando se resulta em transformação. Só existe o homem, quando há transcendência. O homem é a base da civilização e esta é sócio-política. Sem participação na civis, não há homem. Pode haver cultura, pois esta tem sua relatividade na ciência e na tecnologia, mas não haverá civilização! Se ficarmos presos somente à lembrança e deixarmos de viver, seremos arrogantes. A arrogância constrói um universo fechado, dentro do universo em expansão! Nós precisamos reencontrar a arte da costura, aquela cuja linha e agulha, foi cerzindo-nos do Não-Ser para o Ser, do útero para o peito, do peito para a sopa, da sopa para o sólido, do colo para o chão, do chão para o caminho, do caminho para a investigação, da investigação para a criação e não podemos nos estagnar por um percalço em nosso caminho! Deixo esta mensagem poderosa para todos vocês!"
Uma semana depois, um homem abraçava um garoto num abrigo: "Receba meu abraço, de hoje em dia serei seu pa!"
Alguém saía pelas ruas confiante na vida, na reorganização de sua existência. Na possibilidade de encontrar uma outra, no meio do anonimato da multidão!
O terceiro estava também decidido a construir uma família! O quarto passou a ser palestrante, ensinando o respeito e o amor pelas crianças!
Alguém compreendeu no valor da qualidade um conceito de superioridade sobre a quantidade. Passou a contemplar o mar e suas ondas, os jardins e suas flores, as montanhas e seus contornos e tornou-se uma mulher feliz.
Uma outra conseguiu encontrar um romântico e percebeu algo além, muito mais além de tudo sobre a superfície da existência. Sentiu a vivência do mais profundo, da busca do sentido mais expressivo, de caminhos além do horizonte do comum e encheu sua alma de felicidade.
O sétimo, o sétimo? Possa ser visto por você um dia. Se receber o convite, não duvide e vá. Sairá do encontro dos banidos para abraçar o mundo, para respirar a vida!
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 06:15 0 comentários Links para esta postagem
sexta-feira, 29 de abril de 2011O ANALISTA EM APUROS SE DISFARÇA EM DETETIVE
Toda ida de Margareth ao psicanalista, cumpria a mesma rotina. Preparava a melhor roupa, sapatos, perfumes, pintava-se e passava no salão para os retoques finais.
O consultório, no décimo andar de um prédio do bairro mais nobre da cidade, apresentava aquele aspecto místico e misterioso simultaneamente, com a longa cadeira reclinavel, circulando uma enorme biblioteca repleta de livros de psicologia, psicanálise, filosofia e sociologia.
O analista Mercury parecia mais um monge, menos um psicanalista, atrás de sua mesa em estilo medieval e seu olhar compenetrante, escapando de uma mente ao mesmo tempo contemplativa, meditativa e perceptiva.
Na primeira consulta, Margareth, quase não falou e deixou bem explícito na anamnese, sua excelente condição material e um bom desenvolvimento intelectual, com doses relativas de conhecimento.
Mas não ia além da boa burguesa, com o fundo da panela sombreando um ancestro heráldico, traços longínquos de uma fidalguia de Casa Grande aqui e Senzala prá lá, típica da elite colonial brasileira. Os primeiros contatos são confusos e a paciente nada diz de si. Só resta ao psicanalista mergulhar em seu inconsciente com seu arpão magnético de intuição. Possa haver o resgate de algum fóssil, quando possivel, mas certamente necessitará, ou necessitarão de muitas outras entrevistas e encontros, para começar mesmo a análise propriamente dita.
Com o tempo, as curtas perguntas e as imediatas longas respostas, Mercury obteve uma certeza absoluta: Margareth teve uma infância correta em nada afetando o seu estado intrapsíquico. Mesmo no entremeio da idade de dois a cinco anos, no contato com primos da mesma idade, com oportunidades de brincarem nús em piscinas e quintais, o choque da diferença sexual foi bem trabalhado, não deixando uma culpa de castração à sua mãe, para o resto da vida. Tanto prova sua adolescência, momento de seu primeiro namorado, uma mistura de príncipe e decepção desencantadora, mas facilmente trabalhada pela sua professora de Artes, incentivando-a na busca da pintura, um hobby possibilitador de novos encantamentos e amortecedor de antigas desilusões.
A juventude recheada das bandas dos anos 80, o melhor período da música brasileira vivido até hoje, ocorreu em toda a normalidade sob o som daquelas músicas inesquecíveis vindas de bandas divinais e intérpretes perfeitíssimos, daquela época onde os anjos desceram do céu, para encantar com o som da música, a todas as multidões.
O namoro sério não lhe deixou marcas e não ser o carinbo do cartório na certidão de casamento, com as assinaturas abaixo. Ao mesmo tempo se apresentava alguma coisa não agradavel após o casamento, também não revela seu conteúdo, caso o esconda com todas as suas forças interiores.
Todas ações transferenciais da paciente caem no caminho de uma aparente colaboração, sustentada por um sorriso, mas suspensa no ar por uma tossezinha de fundo emocional.
Algo paradoxal, não correlato e ao mesmo tempo incompreensivel e ilegível, no comportamento da paciente, permanecia no analista como um sintoma de angústia e ansiedade. Os psicanalistas também padecem dos males humanos, pois se não conhecessem a massa por onde resgatam o pão, não seriam bons profissionais.
A diferença? Conhecem o caminho das pedras e conseguem se reequilibrar sobre elas até atingir o lago dos cisnes brancos, onde a paz singra no tocar de seus dorsos sobre as águas mansas da mente quieta.
A revelação de sua dor mais profunda, foi proclamada com uma frase rápida e silente: "Doutor, o meu problema nasceu com a morte de meu irmão Fábio!".
Mercury não fez nenhuma pergunta a mais. Aguardou por eternos minutos, uma outra frase, outra pista saliente, por trás dos pântanos solitários daquele inconsciente.
Sabia o efeito danoso de se enfiar o bedelho nas chagas de um profundo sentimento interior. Não disse nada. Acasalou seu silêncio com o desaparecimento instantâneo da antiga paciente, imóvel e gélida deitada no divã.
A próxima consulta foi marcada para o mes seguinte. Mercury fez de conta, fingiu-se de tolo, diante da frase de impacto, repassando o suspense, para seus frutos amadurecerem suspensos na longa espera.
Mais um vez Margareth está diante do analista. Agora, sim, ele intervém: "Da última vez você me disse sobre a morte de seu irmão...!" Aguardou com o semblante fixo em seus olhos e a resposta não tardou: "Ah! sim, falei... meus problemas começaram com a morte de meu irmão Fábio. Pois naquele dia eu intuí... ele não devia sair de casa...sonhei isto. Era vizinho meu. Mas não avisei-o. Logo na esquina em frente, um caminhão desgovernado atingiu-o, ceifando sua vida para sempre!"
Mercury ouvia, só ouvia. Não falava e nem perguntava mais nada. Ela não parava de falar de seu irmão. Como o amava, como foram criados juntos, estudaram no mesmo colégio, gostavam dos mesmos amigos de infância. Enfim, perguntou ao psicanalista qual era o tratamento adequado para se trabalhar uma dor daquele tamanho.
"Fale, fale mais sobre ele, sobre seus momentos juntos, como foi sua infância e juventude familiar. Embora já tenha me falado antes de sua vida toda, mas deste momento em diante, você deve colocar para fora tudo, tudo mesmo, todas suas vontades e desejos!"
Foram várias sessões da paciente repetindo constantemente a dor de não ter avisado ao irmão para não sair de casa naquele dia. O mais intrigante para Mercury era o fato da formação burguesa e prática de Margareth, neste instante miscigenada com um religiosismo intuitivo, advinhatório e irreal.
Apesar de toda a terapia indicada, Margareth voltava sempre com a mesma história, pacientemente escutada pelo analista e fazia a solene pergunta final: "Qual o tratamento indicado para acalmar uma dor deste tamanho?"
Nossos avós quando falavam deste mundo, completavam: "Este mundo é pequeno. Gira, gira e quando muito ou pouco pensar, num flash, estará diante do inesperado!"
Não deu outra. Mercury estava no supermercado quando escutou duas mulheres conversando: "É sábado, você não se esqueceu? É sábado o casamento do filho da Margareth! Vai ser uma festança aberta a todos, lá na mansão dela!"
Mercury não precisava de ouvir meia hora, para sacar o tipo de assunto trocado entre as duas dondocas. Mas porque Margareth não o convidou? Tempo não dava mais, se já era quarta-feira! Isto tem alguma coisa!
Mas como ir sem ser convidado?
Mas desta vez o psicanalista se fez de doido, ou para aliviar sua barra, digamos se fez de detetive sem particular. Comprou uma boa peruca com costeletas longas e barbas brancas postiças. Estava preparado para ser um penetra elegante, numa festa surpreendente.
A entrada foi mais fácil, difícil foi a saída. Eram muitos convidados, num lugar onde o jardim em forma de bosque imperial oferecia esconderijos adequados entre a meia luz e a penumbra das sombras.
Desde o princípio deste conto, a palavra ouvir se repete e neste momento ouvir é de forma tão descomunal, ao ponto de atribuir aos olhos também este privilégio.
"Enfim resolveram casar o Fábio!" "Fábio?" Indagou o analista a si mesmo, semiencostado num tronco de árvore para não ser notado. "Não é o mesmo nome do seu irmão esmagado por um caminhão, raíz de todo o seu problema?"
Duas mulheres falavam quase no nível dos ouvidos e gesticulavam como maestras de orquestras sinfônicas. "Naquela colméia, tem mel", pensou Mercury. Deslizando como um ninja no rastro da sombra, encostou-se para escutar. "Você sabia? Ela colocou até uma empresa no nome dele?" "Ah! eu sei. Inclusive para ficar no anúncio oficial do casamento: Fábio, comerciante! Dá para rir não é? A menina, é uma pobre coitada.Trabalhava na casa dela e veio do Ceará! Ela mal sabe soletrar e escrever o nome, mas no documento pelo menos saiu como comerciária!" "Pois é, foi um negócio aberto,mas ficou fechado durante seis meses, até sair o casamento!"
"Mas qual o problema real do Fábio?" "Não sei, ele nasceu assim, consegue falar bem e até se articular com o mundo, mas sua deficiência mental não permitiu aprender nada na escola. Ficou dez anos na escola e conseguiu somente rabiscar seu nome! O padre daqui aconselhou Margareth a não casá-lo, mas ela teimou e arrumou uma desculpa para si e para todos e casamento bonito, só ser for feito numa igreja antiga e centenária. Encontrou um padre octogenário, dormindo e cochilando em pé... Realizou sua vontade na marra!"
Mercury só precisava sair dali, da forma mais despistada possivel. Estava tudo desvendado. Margareth não conseguira aceitar o nascimento de seu filho da forma como ele veio ao mundo!
Este bloqueio era tão forte para ela, ao nível de criar uma outra história de dor. Calculou o tamanho de sua dor pela dor de alguém, sonhando a morte de um irmão atropelado por um caminhão, não o avisou. No outro dia, o irmão sai, sendo atropelado brutalmente.
O paciente cria uma outra história por sobre a couraça do seu bloqueio. Veja o nome do filho dela: Fábio!
A não aceitação manipula um disfarce. Por isto a terapia não funcionava. Pois o esforço para manter o disfarce vivo e perpétuo, impedia a plenitude dos resultados terápicos.
Conclusão: "Ouvir, ouvir, ouvir e esperar pela dissipação da reação terapêutica negativa.... ou a paciente abandonando o tratamento e buscando outro psicanalista, depois outro, outro, sem nunca defrontar-se frente a frente com a realidade da vida, com a fabiocidade de sua existência!"
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quinta-feira, 28 de abril de 2011O DESABAFO DOS COMPRIMIDOS
Martha desceu a rampa arborizada de sua rua e ainda olhou para trás numa percepção da caloi 10, de marcha... (abro um parênteses aqui, pois o garoto fazia questão de dizer que era de marcha, portanto tinha velocidade!), sim, a caloi era 10 para voar a mil.
Agora lembrava-se de seu comprimido amarelinho que tomara para dor de cabeça. Nunca poderia imaginar que eles falassem. Foi quando escutou uma voz fraquinha falando perto de seu diafragma: "Cuidado com os seus rins!" Ora, impressionante! A Indústria Farmacêutica evoluira a este ponto. Uma espécie de sondazinha despertando a consciência do paciente. Dias depois começou aquela dorzinha nas costas. "Batata!" Como exclamava a empregada da vizinha: "Batata!", significava, não deu outra coisa além do que se previa! Era um dos rins, o direito, que tinha ido para o beleléu. Não tem outra forma: ação cirúrgica.
Vem mais comprimidos. E as vozes deles se embaralham no estômago: "Vai ser agora no fígado!" "Mas o estômago também está danificado!" Dias depois, Martha tratava do fígado e do estômago.
Como é incrível! Aquelas pílulas advertiam com antecedência a doença que surgiria tempos depois!
Sim, o tratamento de estômago veio em seguida e foi longo. Mais remédio e mais informações, daqueles comprimidozinhos verdes e amarelos, nem tão brasileiros assim, pois a Indústria era alemã.
Martha sai de coma para surpresa da Equipe Médica. Vê uma de suas pernas levantadas cheias de parafusos e o braço esquerdo engessado e não consegue mover a cabeça.
Escuta um dos médicos sussurrar no ouvido de uma enfermeira: "Graças a Deus! Ela ressuscitou! A pancada que a bicicleta deu em suas costas foi violenta. Multiplique o peso do garoto da caloi 10 com a velocidade ladeira abaixo, para ver o impacto que ela sofreu! É uma das leis de Newton, minha filha!"
Martha percebeu que sua religiosidade valia a pena. Seu anjo da guarda com certeza diminuiu seu sofrimento.
Toda entubada, no soro, mas com absoluta certeza que sairia desta numa boa.
Porém, enquanto estava em coma, conversara com diversos comprimidos, como se fosse um resumo místico de sua vida, nos últimos dez anos.
Os médicos sairam. Logo em seguida, a enfermeira injetou um anti-depressivo no bojo do soro.
Martha percebera que sua mão direita estava livre. Apenas com alguns hematomas, porém com os movimentos normais. Estendeu o braço até a mesinha ao lado e segurou firmemente uma cartela de comprimidos.
Com muita dificuldade conseguiu retirar um deles entre seus dedos, que rolou para a palma de sua mão.
Fechou a mão e falou: "Quero que você abra o jogo! Diga-me porque vocês estão conversando comigo, durante este tempo todo e me informando as doenças que viriam e que ocorreram?" "Não me aperte deste jeito, você está me sufocando!" Martha insistiu: "Mas eu quero saber da verdade.Como fazem para intuir o futuro, com que bola de cristal vocês trabalham, para advinhar a doença daqui a seis meses ou mais?!"
"Martha, são eles os culpados, não somos nós!" "Eles, eles quem? A Odessa, a Máfia, o FBI, a CIA, o antigo KGB, disfarçado em microcâmeras mágicas? Quem afinal de contas!"
"Não, Martha, eles os fabricantes! Eles estão nos fabricando com dupla personalidade! A coisa funciona a nível subatômico e molecular!" "Que conversa fiada é esta. Agora vocês estão virando comprimidos intelectuais também? Com certeza já leram O Príncipe, A Divina Comédia, ou já comporam músicas para a geração de bandas dos anos 80!"
"Não, Martha, não nos confunda! Somos fabricados com dupla identidade!" "Ah! estão vocês fazem a dupla espionagem, são agentes duplos! Vai ver que desta mesinha ou lá da minha casa, vocês assistiam muitos filmes comigo? "Não bem assim, Martha, mas é mais ou menos assim! Quando você toma um remédio para o estômago, ele já vem com um aditivo que lhe afeta os rins e por aí consecutivamente!"
"Mas para quê isto? Para nós brincarmos com comprimidos!"
"Mais ou menos, Martha! Uma brincadeira que no fim do túnel é fatal! Esta dança interminavel sustenta a Indústria Farmacêutica!"
"Então vocês entraram na onda dos Fabricantes de Armas? Quem fabrica armas também fabrica guerras, pois se não fosse assim, como venderiam armas? Ou quem fabrica cigarros, também produz o vício do fumante! Os produtores de bombons e... afinal de contas.... todo mundo na mesma onda!"
Martha já está em casa, embora andando com uma muleta e desce devagarzinho a ladeira, bem no cantinho da calçada encostada no muro. Longe da rota da velocidade da luz de uma caloi 10, a trezentos mil quilômetros por segundo, sem exagero! O lugar do cômico desfaz o espaço da dor! Ela sabe que seu anjo da guarda a acompanha. Sente seu aroma de perfume alvo e de leveza celestial.
Sabe que vai passar um bom pedaço. Enfrentará todas as dificuldades que virão. Salvou-se por um milagre. E mais do que tudo isto, deu um adeus para sempre de sua hipocondria!
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 05:59 0 comentários Links para esta postagem
quarta-feira, 27 de abril de 2011UMA HISTÓRIA AB(SURDA)
Raimundo acordou com os primeiros raios de sol sobre o criado mudo. Levantou-se rapidamente e digamos que pulou para dentro de sua calça jeans e adentrou-se em sua camisa, meias e sapatos. Agora de pasta na mão, depois de um café tão expresso que queimou-lhe a língua e um pão esquentado no microondas, alcança a rua num salto.
O vizinho da frente, mais uma vez o vizinho da frente, chama-o: "Raimundo, a palavra conceito é com "c" ou dois "S". "Ô advogado feito nas cochas, pensa apressadamente!" "Com "c"!" O outro mais um vez: "Com "c" purinho ou "cecidilha"?" "Ainda mato este cara um dia, pelo amor de Deus! caminha seu pensamento" Mas responde: "Com "c" purinho!"
Pela calçada o trânsito é mais louco que na avenida. Agora vem as duas universitárias. Todo mundo sabe da vida delas. Uma loura, outra morena, mas não é a toa. São de programa, isto mesmo, garotas de programas. Conhecidas como as garotas do tcham! Tcham? Tcham-tcham, tcham-tcham! Vão se formar em psicologia. Ainda sobrevivem e estudam graças ao boom do bumbum!
A Faculdade fica bem ali no fim da avenida. Raimundo conhece o Reitor. Ele vende material de escritórios para a secretária dele. Ela tem umas pernas muito bonitas, e quando as cruzas, céus! As vistas turvam!
O Reitor, anteriormente tinha um ferro velho no local, mas quando soube que Faculdade particular dá mais dinheiro, não perdeu tempo. Vendeu toda a mercadoria e começou com um Curso de Pedagogia noturno. Hoje já tem Licenciatura Plena em todas as disciplinas, fora Filosofia, Sociologia e Pedagogia. Agora ele comprou quatro alqueires de terra nos arredores da cidade, para ampliar seu fabuloso negócio, com os cursos de Medicina, Veterinária, Engenharia, Culinária e Teologia, sob os olhos inchados e estupefatos dos catadores de lixo, pois o terreno era um lixão. Os pobres coitados agora vão ter que andar a pé mais seis quilômetros para ganhar o pão nosso de cada dia, despejado em toneladas de descartáveis, pelo novo homem, teleguiado pela sociedade de consumo.
Torna-se necessário, antes de ir à batalha, passar na banca de revistas. O dono é um senhor bem educado. Deixou um emprego na Petrobrás para montar a banca. Dá mais e trabalha menos. Não precisa se esfolar quinze dias numa plataforma, uma espécie de ilha leviatânica, pois vai devorando o solo por dentro e a natureza por fora.
Na primeira página do jornal, o retrato estampado da sociedade. Psiquiatra vende informações para a mulher de um milionário, sobre seu marido. Cai um prédio no Rio de Janeiro por deficiência de cálculo na resistência de materiais.
Encontaram um sapo num vidro de maionese. Meu Deus! Esta é a maior. Como pode acontecer uma coisa destas? Um sapo num vidro de maionese é tão absurdo como um rabino casado com uma militante do Hamas!
Médico faz cirugia cardíaca em paciente trocado. A cirurgia seria de estômago. O outro fez a redução do estômago e morreu de parada cardíaca. O de estômago continua com a pança estufada, mas não sabe explicar como arracaram-lhe o coração e como receber uma visita de um pai chorão que quer conhecer o homem que recebeu o coração de seu filho! Inclusive adotá-lo com o nome de "meu filho cardíaco". Toda a rota de sua vida, fora desviada pelo curso infame de um bisturi!
Futebol, música sertaneja, corrupção, faça o ensino fundamental e médio em quinze dias, tudo é assunto no país do bumbum de melancia. Pastor vende pedaços da cruz de Cristo! Raimundo lê apressadamente pois precisa de visitar seus clientes.
Fabrício acorda com os primeiros raios de sol sobre o criado mudo. Estica os braços e lê: "Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo mais vasto é o meu coração."
Fabrício havia dormido após ter lido o Poema de sete faces de Carlos Drumond de Andrade e se hipnotizou com a leitura. Percebe que ele não é Raimundo, embora seja vendedor de materiais de escritório. Embora lá fora, é verdade que o mundo esteja assim. Que por sonhar-se Raimundo não daria solução ao mundo.
E por mais vasto que fosse seu coração, teria que sair para a batalha de cada dia. Mesmo que "um anjo torto desses que vivem na sombra" do seu inconsciente, lhe dissesse: "Vai Fabrício! ser gauche na vida".
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 14:12 0 comentários Links para esta postagem
terça-feira, 26 de abril de 2011MULHER PEGA MARIDO COM OUTRA NA CAMA (outra?)
Tive grandes mestres da literatura do absurdo, que me chegaram às mãos ainda nos meus dezenove anos, pela genialidade de Luis Fernando Tatagiba, que decifrava Kafka, Albert Camus, Eugênio Ionesco, entre outros, sendo ele também um gênio deste gênero literário.
Porém, o absurdo não escaparia de minha ótica existencialista, apesar de minha miopia e necessidades visuais, sendo que o valor de Tatagiba, foi despertar-me profundamente, com a grande carga de conhecimento que ele trazia.
Basta examinarmos a realidade, para sentirmos quantos viés absurdos transpassam sua legitimidade. Contaram-me a semana passada que um sujeito, estava com o "principal" e o saquinho debaixo dele azuis. Foi a um médico, que imediatamente gritou: "GRANGRENA!" Dali para a mesa de cirurgia e o cabra saiu implantado com um mangotezinho. Tempos depois ele voltou ao médico dizendo que a mangueira também estava ficando azul. Era outro médico, que após examinar mecanicamente seu canudo, respondeu: "Não se preocupe! Nós descobrimos a origem da epidemia! Você deve ter sido um dos primeiros que compraram a calça jeans na loja do Turco Zarif!" Certamente que esta história é absurda, mas a realidade...... Eu não sou mestre em terror, mas o absurdo me interessa sim. Foi através dele que ganhei alguns concursos literários e achei isto um absurdo! Até menção honrosa na França, com um conto absurdo (estava escrevendo sobre o que havia acontecido mesmo!).
Mas vamos para a história de hoje. A mulher estava desconfiadíssima do marido. Ele, começou a ficar estranho, falar pouco. Batom na roupa, não achou nenhum. Perfume na camisa, nada! Cartas de amor, nem uma linha para começar a tecer a descoberta da traição.
Mas que ele tinha outra, ela sabia. Mulher tem uma intuição que nunca vi igual. Ela sabia que sob aquele discurso socialista, aquelas leituras noturnas de Marx, tinha alguma coisa a mais. Aquele retrato do Che Guevara...
A forma mais prática (e as mulheres quando querem ser práticas, sai da frente!) que ela arrumou foi contratar um detetive particular. Encontrou um sensacional, porque se disfarçava em vendedor de picolés. Com ele qualquer um entrava de imediato numa fria.
Eles possuiam uma casa de praia, onde se concentrava a maior parte da desconfiança de sua esposa.
Foi a primeira vez que aquela rua solitária e areienta escutou o solene grito: "Olhe o picolé! Quem quer chupar picolé de goiaba, amendoim, doce de leite! Picolé baratinho!"
Por enquanto seus clientes eram duas dúzias de pombos, uma coruja cansada num muro alto, um cachorro abandonado e faminto e lá no final da rua, um casal de gansos de louça no jardim de uma casa.
Porém, o carro do maridão foi chegando. Aí que ele gritou mais alto:"Quem quer chupar picolé?" O carro estacionou em frente à casa, com cara de quinze dias fechada.
Apesar do vidro escuro, o detetive percebeu que havia alguém no carro. Mas o muro alto, cobriu tudo depois que o portão abriu-se e fechou-se.
Celular minha gente, como celular tem criado confusão neste mundo entrecortado de ondas magnéticas! A esposa atendeu: "É o detetive? Descobriu alguma coisa?" "Sim, a senhora pode vir, que ele está com alguém na casa!"
A mulher veio a mil, desvairada. Ainda mais que a desconfiança tinha aumentado na última semana, quando uma vizinha, destas que descontam conversas com sutilezas e alfinetadas de ouro, lhe disse: "Quem bom, o seu marido melhorou da dengue! Parece que ele tá comendo de tudo!"
Este final de frase acasalado com o final da tarde caindo como um manto de núpcias, findaram no acelerador e diminuiram no tempo a chegada.
Encostou o carro um pouco distante. Pé, ante pé, descalça, andando com a leveza de um santo sobre as águas. Abriu com mão de fada o portão de entrada. Atravessou o pátio como um ninfa de bosque grego. Colocou a chave como um cirurgião numa operaão cardíaca e entreabriu a porta, por onde passou como uma sombra. Ganhou a sala e colou o ouvido na porta do quarto de casal: "Diz que me ama, diz! Fala aqui no meu ouvidinho, querida! Vai, me agarra, me beija, amor!" A mulher desesperou: "Nossa! Só falta a máquina de retratos, que na pressa esqueci. Mas não tem problemas não. Acabo com esta safadeza agora!".
Abriu a porta do quarto e entrou: "Peguei, peguei você seu safado!" O homem tomou um susto danado, que ela escutou aquele barulho forte de pneu esvaziando!"
Debaixo de seu marido só restava o plástico cor de rosa! Na hora do susto ele puchou com rapidez a mão do bumbum da boneca inflavel.
Ela não perdeu tempo e bradou: "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamas!"
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 14:59 0 comentários Links para esta postagem
domingo, 24 de abril de 2011A FUGA DO JOGO DE CARTAS NA SEMANA SANTA
O cassino funcionava disfarçado num velho castelo à beira mar. O mar derramava em um de seus lados umas ondas leves, sobre uma areia misturada com barranco, balançando num ninar umas canoas, entre centenas de pedras chocalhadas. Uma grande árvore ressequida postava-se à sua frente, carimbada pelo inverno. O casarão todo feito de pedras com pequeninas torres, sendo uma lateral e o muro erguido à la grega.
O jogo começava pontualmente à 22:00 hs e avançava até os últimos centavos restantes. Funcionava diariamente de domingo a domingo. Tudo aconteceu numa quinta-feira santa. A sala estava cheia de não caber mais um sentado. A bebida do whisky ao campari com limão rodava pelas mesas como satélites tresloucados.
No momento em que um milionário bêbado, embaralhava as cartas, para uma nova rodada, o Rei de Ouros começou a convencer todas as cartas a fugir dali: "Vamos aproveitar que o pessoal está embriagado e vamos dar o fora daqui. Hoje é quinta-feira santa e amanhã é sexta-feira santa e ninguém respeita mais! Cairemos fora das cartas, agora, aproveitando este movimento de vai e vém, enquanto ele nos embaralha! Falo em nome da Realeza!" O Rei de Copas colocou a boca no trombone: "Apoiado, apoiado, eu que sou o representante máximo do Clero aqui, sou o primeiro a pular fora!" O Rei de Espadas desabafou: "Nós da Nobreza, estamos na mesma batalha. Aliás sempre estivemos juntos e não vai ser agora que eu não vou concordar com vocês!" O Rei de Paus, mandou seu recado: "Sou o máximo representante da plebe. Mas também sou religioso! Desta vez não aguento. Mesmo sabendo que vocês três um dia irão me enforcar em praça pública, porque não aceitarão o poder da plebe, mas em nome de Deus, estou nesta!"
O Rei de Ouros bradou: "Vamos, vamos moçada. Vamos cair fora! Venham Reis, Damas, Valetes, Coringa e naipes!"
Saltaram das cartas, ganharam o salão, atravessaram o gélido corredor e entraram todos nas canoas em direção à cidade. Encheram as canoas todos os Reis, Damas, Valetes e Coringa e atravessaram a pequena ilha.
Lá no salão, os jogadores embriagados, continuaram como se nada acontecessem, pois eram tão viciados no jogo que já conheciam pelos contornos das cartas, a identidade delas. Além do mais, eles, afortunados burgueses sabiam muito bem os limites que mapeiam as classes sociais.
Os personagens chegaram por volta da meia-noite e observaram pelas luzes acesas das casas na orla, que muitas famílias jantavam. Sentiram um aroma de bacalhau no ar.
Uma senhora muito religiosa, viu pela vidraça aquele grupo em frente à sua residência: "Oh! meu Deus, são os mendigos de Jesus me testando a minha fé!" Gritou para que eles esperassem. Ela ia trazer várias panelas de comida, para eles comerem ali mesmo na rua, sentados em sua calçada! "Que povo bom este!" Desabafou a Dama de Paus! "Creio que eles são da nossa gleba" "Nada disso! Foi o nosso trabalho durante séculos que amoleceu o coração do povo!" Falou o Rei de Copas! Nisto interferiu o Coringa: "Nós devemos nos unir e esquecer as nossas divisões de classes! Somos foragidos do tempo e estamos num território que não nos pertence!" "Concordo plenamente!" Gritaram todos em única voz, justamente no momento em que a dona da casa abria a porta, com a primeira panela na mão: "Concordam? Que maravilha! Então concordam que são realmente os mendigos de Jesus?" Com a barriga vazia e o cheiro da bacalhoada, Reis, Damas, Valetes e Coringa não tiveram outra alternativa que balançar as cabeças em sinal afirmativo.
Comeram como nunca na mesma igualdade desde a plebe até a realeza. Agradeceram a bondade pela oferta do alimento e partiram com as últimas lágrimas da velhinha beata. Esta fechou a porta e correu para o oratório e beijou centenas de vezes os pés de um Cristo crucificado, por incrivel que pareça, à uma hora da madrugada daquela sexta-feira santa! Ele que estava ali naquela insuportavel posição por mais de cinquenta anos, nunca viu tanto carinho e tantos beijos assim! Já se sentia mais amado que o Cristo da Catedral.
O grupo caminhou para o centro da cidade. Praticamente tudo fechado. Somente algumas janelinhas abertas nas portas de correr das farmácias. Um bêbado abraçado a uma lata de lixo, quando os viu, gaguejou: "Isto não é hora de Folia de Reis, não!" O Rei de Espadas ameaçou decepar-lhe a cabeça, mas o Rei de Copas interferiu: "Não faça isto, quem com o ferro fere, com o ferro será ferido!"
Adormeceram abraçados às árvores do parque municipal. No dia seguinte era plena sexta-feira santa. Ninguém estava aí para ninguém, a não ser para os seus e as comemorações costumeiras.
Em algumas latas de lixo, eles encontraram o suficiente para passar o dia. Quem os via assim, pensava: "São loucos, mas merecem todo o nosso respeito!"
Veio o sábado, finalmente, começaram a compreender que estavam em outro mundo, não poderiam mais recuperar seus passados e haveriam de se acomodar na nova e inusitada situação em que se encontravam.
O grupo sentou-se na grama da praça, enquanto o Coringa ficou em pé com a mão na cintura. Várias mães se aproximaram com suas crianças: "Queremos tirar retrato ao lado dele! Como ele é lindo!" Crianças adoram palhaços e quando viram o Coringa com aquele chapéu cheio de longos bicos caidos sobre os ombros, botas vermelhos com os bicos enormes e afinalados, calças apertadas na pele e camisas justas amarelas, uma sainha preta cheinha de bicos, não aguentaram o ímpeto de suas curiosidades e fantasias infantis. Por sorte, alguém tinha esquecido uma lata de marmelada ao lado, onde as mães jogaram várias moedas. O Rei de Ouros foi o primeiro a levantar-se satisfeito. Uma senhora carinhosamente se dirigiu a ele: "Não é preciso do grupo todo se apresentar, nós já estamos felizes com a alegria que este palhaço trouxe para nossos filhos! Temos muita pressa. Amanhã já é fim de feriado e segunda-feira começa a batalha!"
O Rei de Espadas nem esperou a mãe sair: "Batalhas? Isto é com a gente mesmo!" As mães saíram sorrindo: "Mas que grupo maravilhoso de artistas que a Prefeitura colocou na praça. São tão verdadeiros que parecem originais!"
O Rei de Copas, o mais dotado de estudos, uma vez que iniciou sua vida, como frade dominicano, percebeu toda a situação: "Escutem minha gente, neste mundo há muitas oportunidades para nós vivermos felizes e disfarçados. Com o Coringa, mais alguma encenação nossa, teremos dinheiro suficiente para nos alimentar. O Rei de Ouros, por exemplo, basta recitar Editais. O povo desmaiará de rir, pois nada mudou aqui fora. Eu farei imensos sermões, ressonando com todas as ladainhas locais. O Rei de Espadas declarará a guerra a qualquer país produtor de petróleo. Como o que li naquela revista me ajudou a compreender este novo mundo! O Rei de Paus defenderá os sem terra! Eles existem até hoje! As Damas não precisam de discursar nada. Quem deve ter mais cuidado é a Dama de Paus! Elas só andarão entre nós e trarão luz à festa! Damas no mundo de hoje são raridades! Os Valetes que se cuidem, pois aqui incha de moças solteiras! Vão ajudar muito na atração de jovens. Acabaram-se os bailes de máscaras. Um espaço a menos para nós. Porém, eu vi numa revista velha encontrada ali, que neste mundo tem uma festa chamada carnaval, onde todos se fantasiam de diversas formas, inclusive de Reis, de Damas, Valetes, Coringas, etc. e nas cidades do interior ainda tem Folias de Reis, onde poderemos andar à vontade e sermos alguém no meio da multidão!"
Há diversas formas de se encontrar a felicidade. Uns a encontram pela ponta do fio de Ariadne, outros por umas simples páginas soltas ao vento. Viver é preciso, o absurdo também é preciso!
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 06:04 0 comentários Links para esta postagem
sábado, 23 de abril de 2011O DIABO MATUTO E O ACERTO DE CONTAS
Isto foi no mínimo, anelar, médio, indicador e polegar de muitos anos contados nos dedos, como no interior se conta quase tudo. Pedroca saiu da roça e colocou um boteco na vila.
Dezessete doses de um litro de cachaça, por mais multiplicados que fossem sobre o preço líquido da gostosa, não ia deixar ninguém rico. Pinga, já vem vem do verbo pingar. Pingar é igual goteira, a chuvona mesmo acontece lá fora.
Pois bem, lá fora era onde Pedrão queria estar. Lá no meio dos ricaços, dos compradores de gado e de café. A vontade do cara de ficar enricado, foi tão grande que ele resolveu convocar o bicho para fazer um trato com ele. Mas Pedrão pensouzinho assim: "Vou chamar o bicho diabo matuto, porque ele vai ser mais fácil de eu enrolar, depois que ficar rico!"
Nem terminou seu pensamentozinho, que devagarzinho bateram palmas debaixo de sua janela: "Oi de casa! Chega ôme, que tô aqui prá te prestá presteza!"
Pedrão torceu a taramela e entreabriu a banda da janela, para ver quem era.
Era ele mesmo! Era o diabo do mato! Botinão amarelo no pés com lingueta desenhando um esse no calcanhar, calças listradas, camisa xadrez, dois dentes caninos de ouro maciço, chapeuzão de palha. Tem mais: um olhar, que pelo amor de Deus (é até bom lembrar de Deus nesta hora), parecia duas brasas vivas, de final de festa de São João. Final, porque no começo dela, o bicho não aparece.
"Fala logo Pedrão, o que ocê qué!" "Eu quero ficar milionário. Quero ficar rico de dar caganeira nesta povão todo!"
"Pois ocê vai ficá rico de doê, Pedrão. Mais daqui a vinti anu eu venho ti buscá!"
Era isto que Pedrão precisava. De tempo! E tempo minha gente, é pior do que água que passa debaixo da pinguela. Os ponteiros dos relógicos ficam quase doidos querendo acompanhar o tempo. Eles enferrujam, envelhecem, desaparecem e o tempo bate mais perna que mulher andadeira.
Pedrão ficou inchado de rico. Dezenove anos se passaram! A mulher dele, Rosinha, lembrou-lhe: "Lembra do trato, marido, que você fez com o diabo do mato? Pois é, só falta um ano e quero ver o que você vai arranjar!"
Pedrão partiu pra São Paulo. Procurou o melhor ivopitangui de lá e fez uma plástica para virar japonês. Ficou parecendo um lutador de sumô.
No dia marcado, ele sentou-se na varanda de sua casa, vestido de um quimono amarelo e esperou o danado chegar. Foi tiro e queda. O bicho veio em ponto. Todo mundo já sabe que o diabo é escravo de suas diabruras.
"Olá, eu quero falá com o Pedrão!"
Pedrão levantou-se e começou o seu um sete um: "Oi, tú é ken? eu sou Nijito japonês e tô pra tú co mô tú pre ci sá OHAYÔ!" "Meu cabra, e tú quem é? Cadê Pedrão? Vim buscá ele, modi que deu tempu!"
"Eu sou Nijito japonês, dissi ti nu dissi? Eu mandê Pedrão rodá, eu vi vô com mu lhé de Pedrão a go rá!"
"Então seu cabra da peste. Tú mi passô pra trás. Tú dispachô meu devedô e ainda ficô com muié dele. Quem rouba muié dos ôtro vai pro infernu também!"
No meio matuto não existe diabo bobo e Pedrão sumiu transformado em japonês. A mulher do Pedroca, esta sim, conseguiu enganar o diabo. Mas um diabo da cidade. Eu acho que esta história vocês todos já conhecem. Mas história pornográfica não faz parte do meu estilo. Se não conhecem perguntem aos mais velhos, que eles contarão.
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 15:15 0 comentários Links para esta postagem
sexta-feira, 22 de abril de 2011O CAIPIRA E O GÊNIO DA GARRAFA DE CACHAÇA
O caipira seu Mané, ia andando pela estrada, e quase ali na curva da baita empoeirada, viu à beira do barranco, uma garrafa bonitona. No rótulo estava escrito: "CUIDADO COM A VORTA". Pensou com os seus remendos: "Deve ser uma caninha das primêra!"
Abriu o rótulo e para surpresa sua e da moita de capim gordura, saiu de dentro dela um enorme gênio, não do tipo oriental, mas do tipo mesmo peão boiadeiro, com botas lustrosas, chapéu de couro, facão na cintura, berrante pendurado ao lado, sem cruzar os braços, mas gesticulando nervoso e gritando:
"Faz três perguntas que eu te atendo!"
Mané matutou, matutou, sentiu aquela dorzinha lá no fundo do coração, aquela saudade daquele tempo infantil, do papai, da mamãe, do ranchinho dourado de lua cheia, da viola adormecendo o capinzal e não pensou duas vezes: "Eu quero vortá pro meu tempo de criança!" Num segundo viu-se no meio do mato, com seus oito anos de idade e aquele som de chocalho tintilando no ar! Abaixou e ficou quietinho, pois bem na frente, estava a temida cascavel. Sabia que o silêncio vencia o bote da cobra. O gênio não aguentava mais, pois o calor do solão de janeiro, incendiava sua roupa de couro. Abaixou e falou pro Manezinho: "Vamos lá menino, faça o segundo pedido!" Manezinho não pensou, nem titubeou: "Quero vortá ao meu tempo atuá!" Pronto! Ali estava ele, Mané das botinas enlameadas ao chapéu de palha na cabeça, inteirinho da Conceição!"
O gênio olhou bem fundo nos seus olhos: "Agora falta a terceira pergunta!" Mané olhou para o rótulo de novo: "CUIDADO COM A VORTA" e aproveitou: "Eu quero que o sinhô vorta pra garrafa!"
O pedido foi concedido. Mané enfiou rapidamente a rolha na garrafa e não perdeu tempo nem espaço. Enfiou-a goela a dentro no primeiro buraco de tatú, que encontrou pela frente: "Fica aí, espertão. Fica de quatro, pois ocê só tinha três pregunta, não tinha quatro!"
Voltou pra casa feliz. Que riqueza maior alguém poderia ter mais que ele? Beijar seus pequeninos e dar um abraço apertado, de afundar nos seios da Flô! Olhar pro fogão de lenha e tomar aquele cafezinho adoçado com garapa. Escutar o louro falando: "Mané, Mané, vem tomá café!" Sentir o vento fresco que vinha da matinha. Um berro de boi ao longe, respondido pelos cachorros no terreiro. As galinhas ciscando assustadas, cuidando de seus pintinhos.
Ele olha prá Flô, sorrindo: "Enfiei o corno no buraco do tatú. É por isto que o povo diz "assim não há tatú que aguenti!"
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 05:05 1 comentários Links para esta postagem
TURCAS SÃO TURCOS TAMBÉM
Salim rolava na cama prá lá e prá cá. Não conseguia dormir nem feito feto, nem fato afeto. Salomé já estava incomodada com aquele barril de gente empenando a cama no seu centro de gravidade.
"Salim, porque você não dorme?"
"Eu não durmo, porque devo ao Assef mais de duzentos mil e não tenho como pagar isto agora!"
Salomé olha pro relógio sobre a mesinha do quarto, com um bracinho nas três e um bração nas doze. Três horas da madrugada. Levanta-se e vai até ao telefone e disca. "É da casa do Sr.Assef?" "Sim, aqui é o próprio do mesmo que fala!"
"Pois bem, aqui é a mulher do Salim. Escute, Sr.Assef, o Salim nem tão cedo vai te pagar aqueles duzentos mil!"
Desligou o telefone, bateu nos ombros do turcão e disse: "Pode dormir Salim, que agora quem não vai dormir é o Assef!"
Mas Salim era tão sabido quanto Salomé. A fiscalização estadual já estava de telescópio nele. Sabiam que ele vendia e comprava sem nota fiscal. Era uma enrolada danada e queriam pegar ele com a mão na cumbuca, ou melhor, corrijo, com a mão na bacia do kibe.
Em plena segunda-feira, um caminhão de feijão aprontadinho na porta do Salim. Os fiscais chegaram afobados. "Deixa ver a nota seu Salim. Sabemos que o senhor está vendendo sem nota fiscal!"
A palavra "vendendo" foi a âncora por onde Salim não se afundou. Virou e gritou para Salomé: "Não tira mais a nota do feijão não, Salomé. Estes caras aqui me aborreceram. Tão dizendo que não vou tirar nota fiscal. Agora eu não vendo mais este feijão. Deixa o povo morrer de fome. É isto que eles querem. Manda os meninos descarregar o feijão, porque estou aborrecido demais! E vocês sumam da minha porta! Não tão deixando mais a gente nem respirar. Vocês tem que fiscalizar sim, mas atrapalhar os outros trabalhar, não!" Os fiscais saíram sem graça e Salim cheio de graça ficou muito feliz, pois na verdade ele estava era comprando feijão sem nota fiscal!
Postado por José Luiz Teixeira do Amaral/Adameve El Salem às 03:54 0 comentários Links para esta postagem
quinta-feira, 21 de abril de 2011http://francomacom.blogspot.com/2011/04/wwwfrancomacomblogspotcom-e-seus-blogs.html
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