quinta-feira, 8 de novembro de 2012

LOOK FOR A STAR

Era esbelta, não de beleza das passarelas, mas da pureza dévica das simplesmente belas. Quando ele a viu pela primeira vez, não foi pela primeira vez que a viu, pois o milagre ressurreto das lembranças das imagens construidas desde a juventude, caiu como um arco íris sobre sua mente em forma de raios de sol. Um farol de luz imagética resplandecia sobre os espelhos das águas e não era ainda o primeiro dia da criação de um amor que as palavras não alcançam, mesmo aquelas que estão no dicionário, albergadas da vontade que alguém as adote e as retire das paredes frias onde estão ilhadas naquele livro de abrigo. Assim como pensamentos às vezes circulam para que sejam adotados por pensadores, também há sentimentos que como fantasminhas pululam em busca de identidades. Um destes sentimentos mais valorosos é o amor. Este farol de luz era o seu olhar. Ao observá-lo ele via que isto era bom. Se fosse somente ela não seria tanto, pois mais uma, depois de tantas que inclusive passaram pelo alvorecer da manhã, até mais novas ou aparentemente mais sensuais, não acrescentaria nada na interface daquele encontro. Contudo que cada ser tenha sua nobreza ou sua importância, é de surpreender que mais uma, naquele primeiro dia, não seria uma qualquer. Nesta liberdade das palavras poderem mudar de lugar, quase dá para explicar alguma coisa sobre o esplendor daquele ser. Mas o seu olhar? Sim, pergunto, não o que havia por trás dele. Por trás dele há o que há sempre quando se olha uma mulher. Um vulto que não deixa de ser querido e fantástico, mas conforme acima, um vulto a mais. Existencialmente falando, um vulto aí, um ser no mundo. Mas o seu olhar? Este o grande mistério. Pois o mistério é misterioso e perdoem-me se sou enfático, não sou enfadonho, quanto mais se adentra nele, mais indagavel ele fica. Era além do seu olhar, uma estrada florida que se alongava sob a proteção dos seus cílios. Duas veredas invertidas que representavam e alinhavam uma longa jornada sobre os fenômenos do mundo. De um lado Moisés e do outro lado Salomão. Duas lembranças arcaicas que se embaralhavam enquanto a pista se prolongava ao infinito. Ele se preocupou avidamente em preparar dentro de si, um ancoradouro poético e romântico onde pudesse suster para sempre aquele olhar. Sim, foi a partir deste ato estático a princípio, mas arquetípico em sua estrutura, que ela olhou profundamente para ele no início da infinita jornada. Como um beduino do saara ele levou aquele olhar no alforge de sua recordação mais meiga e começou a pressentir que sua alma era forrada de seda. Sendo assim, preferiu andar permanentemente dentro de si que era mais interessante, pois era lá dentro que ela permanecia olhando-o fixamente. Olhava-o com uma clareza fixa e passeava com os seus olhos pelos canteiros floridos do seu pensar criativo. Ele acordava de manhã muito feliz e abria os olhos diante da janela, para que pudesse olhar o mais possivel para dentro de si. Abria a janela sem medo algum no amanhecer de cada dia, com a plena convicção de que aquele olhar era um beija flor pousado em sua consciência. Ele não tinha ciúme nenhum das flores brilhantes no jardim. Aquele olhar era o seu mais íntimo pássaro cantor.

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