Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
QUO VADIS?
O ébrio mergulha na tarde com o último pássaro embutido em seu ninho. Desliza as mãos em delirium tremulum sobre o balcão envernizado de rum, aguardente, com o substrato alcoólico de várias bebidas. Seu olhar desgovernado como uma charrua quando perde uma das rodas, tenta encontrar na duplicidade das formas e dos vultos a única porta que o conduz como de costume a um tropeço, um tombo e um albergue sob a media luz de um alpendre.
Faltam-lhe dois ou tres botões na camisa, que diferença faz a quantidade numérica bem ou mal calculada, sendo que sua calça de desbotado jeans está amarrada com um barbante e só tem um pé de sapatos nos pés.
Em algum canto da cidade uma criança resmunga no berço. Dois meses, tres meses? Sei lá, se neste momento seu subconsciente capta o mundo pela boca e registra sensações de sua fome momentânea como se fosse um seio mau lhe mordendo. O seio bom é a contrapartida de um mundo instantâneo na ida e vinda de uma mãe esplenderosa, que por enquanto se juntam todos num compacto simples do outro lado da sucção.
Movimenta inquietadamente, mas não há ninguém por perto, pois aquela que mais lhe atende, dorme sua única noite de sherazade entre as mil, resultantes de uma soma do pré e pós parto. Porém, se estivesse acordada, com certeza incorporaria à pequena maestra gestual a sinfonia de sua atenção divina.
Os amantes se envolvem na bruma do leito, enquanto o quarto levita para uma não dimensão, pois não há quem calcule e ainda não se encontrou o bom geômetra que empunhado de exímia ampulheta, pudesse prever o nível de suas emoções.
Os travesseiros e os lençóis esvoaçam sob a bruma do piso, enquanto a tempestade de areia do deserto atravessa os domínios de um suserano poderoso e de sua amada bailarina imitando o contorcionismo das dunas com seu ventre sexy.
Lâmparas multicores são faróis no teto coadunando com todas as auroras boreais, revestindo a memória com lembranças de contos andaluzes e sábios conselhos sefarades que perpetuaram pelo tempo sob o brilho do sol.
En ninguna parte se percebe algum barulho. Não há perigo rondando por perto. Somente um devenir de bons momentos cresce como arbustos nos bosques, vindos dos carinhos e dos abraços.
Bem distante dali um investidor se debruça sobre seu computer para intuir com mais clareza o movimento das ações. Suas rendas dependerão da colheita ou não da primavera árabe e de uma possibilidade da caída do quartel general sírio.
São dedos manipulando teclas, dependentes de outros dedos apertando botões de tanques, cabines de guerra, controlando mísseis, poços de petróleo, fábricas bélicas. Valsa das mãos que controlam o mundo, desmitigam a fome, poluem, desmatam e reinventam um caos. Este inverso do avesso do caos original.
Um escritor repassa para a tela seus contos. Há um instante, não este nem aquele, onde os artesãos das palavras vão beber suas taças de estórias maravilhosas.
Neste lugar só entram os despercebidos, aqueles que esqueceram de si mesmos, os que foram embora daqui e dali, mas levaram consigo seus perfumes em vidrinhos potentes e inquebraveis.
Tudo isto aconteceu entre as nove e as doze, ou melhor, para ser preciso, já que não sabemos a cor da precisão: entre as vinte e uma e meia noite.
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