domingo, 29 de outubro de 2017

Declaração (Adameveelsalem, heterônimo de José Do Amaral)

Eu, por uma questão poética particular, acho mais interessante sair para assistir ao espetáculo circense de cada milagre momentâneo de uma filosófica existência significada de símbolos e perfilada de lendas milenares incrustadas, incorporadas no rosto do insondável, contemplando do seu convés perpétuo, junto aos seus convidados, com seu olhar de astrolábio, o desfigurar e ao mesmo tempo ajuntamento de todas as coisas sem que ninguém lhes perceba o incessante movimento, nem tão pouco o oscilar da barca do cosmos, como Galatéia eterna; tranquilo com seus janízaros empunhando seus sabres, reluzindo com as cores vibrantes das ondas, porque não estou preso somente às molduras à vista, mas ao grande e impetuoso espetáculo de tudo! Escrever não é fácil, pois não é dedilhar coisas simples que se encontram na primeira esquina! Não nasci para rimas pobres, nem para idéias banais! Bem que respeito a todos estes que rimam amor com dor! Para eles, eu abro o meu guardo sol ao sol e não há repetição mais sarcástica do que esta! Pobres poetas de rimas maltrapilhas e pensamentos rotos! São como todos estes que saem às ruas todos os dias a perguntar por coisas tão simplórias, que nem elas mesmas querem ouvir suas estórias! Eu não escrevo poesias como muitos pensam! Não pensem isto de mim! Eu sou a própria poesia encarnada em minha liturgia diária! Por ter nascido acasalado assim, sei disfarçar-me em anabiose. Sei bater palmas para Insensatos rimadores e tecelões de trapos poéticos, para escapar-me do tiro de arcabuz e fingir-me de argamassa enquanto por dentro moro na casa da Poesia com alma de arqueiro zen, que sabe com um arco só e uma seta somente atirar em todos os alvos ao mesmo tempo, com um movimento sutil, porque não sou dono de nenhum argumento, sou a própria narrativa do Verso! Enquanto uns plantam exaustivos pelo chão, eu danço como Shiva eterno plantando polens ao vento!

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