A cada dia aquele homem de blusão preto revirava todo o lixo. Separava as partes mais interessantes e colocava numa enorme sacola. Saía cabisbaixo, demonstrando-se envergonhado dentro de suas roupas envelhecidas da classe ene. À primeira vista aparentava ser um senhor de meia idade, desempregado, desgostoso com a vida e sem esperança alguma de futuro.
Às vezes deixava objetos mais valiosos em troca de uma simples embalagem. Em determinados momentos assumia atitudes hipocondríacas colecionando bulas de remédio. Naquela avenida à beira mar, ele percorria todos os latões. Mas pelo menos era cuidadoso: não deixava nada cair na calçada. Centenas de prédios despejando toneladas de descartáveis. Um serviço diário em busca de inutilidades. Mas há loucos para todas as espécies de loucuras.
Retirava restos de saquetes e os guardava como se fossem diamantes. Poderia ser até mesmo um colecionador de receitas médicas, surpreendia-se com certeza alguns olhares curiosos dos apartamentos mais distantes. Uma mania que somente o mergulho subliminar de um psicanalista poderia desvendar.
Não perdoava nem mesmo a guardanapos usados. Foi justamente estes últimos restos os marcos delineadores do fim de sua jornada.
No dia seguinte a polícia federal prendia o morador do apartamento 606, de um dos edifícios mais bonitos em frente ao mar. Estava completamente levantada sua verdadeira identidade. O lixo foi o maior delator.

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