
Na verdade o que ocorreu com Clóvis foi um desânimo total. Cansou de trabalhar como artista de rua. O papel? Nem fale assim! Era tinta na pele. Tinta cinza como as tardes choronas de inverno. Estátua, soldado romano, Ricardão, índio, sem contar a posição estranha que lhe rendeu quatro dias de prisão num cidade pequena. Portanto morreu. Se foi como um passarinho não foi, porque não levou pedrada. Levou ovo choco somente pela cara abaixo. O velório foi o mais simples possível. Um caixão de terceira. Um quarto de uma dúzia de rezadeiras de terço, para dar a impressão que tinha muitos amigos. Amigos nenhuns ou quase pouco, um punhadinho só, levaram-no para o necrotério. Entegaram-no de mãos cruzadas no peito ao coveiro. Este conduziu-o como num filme de terror para a cova. A última sobre sobre sobre outros tantos mortos indigentes. Num gesto rápido, Clóvis agarrou o coveiro pelo colarinho. Jogou-o na cova. Enterrou-o. Apanhou seu documentos. Trocou o retrato. Agora mora numa casinha na parte superior do cemitério. Comporta-se bem como bom coveiro. Ninguém dá atenção a ele. Quem quer ser amigo de um planta defunto?
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