
Carregando todos os dados referentes ao inquérito do braço decepado do Sr.Velasquez, em uma pasta marrom, o detetive Souza desce apressadamente as escadas do prédio da Corregedoria. Elevador? Nem pensar! Viação canela no expresso do dia! Escapava seu pensamento através de um sorriso dietético. Tão esquivo quanto ele mesmo. A origem deste pânico veio à luz de um abajour sobre um sofá macio de um psicanalista. Problemas no parto! Por mais um pouco repetiria a semântica de César. A fobia continuava apesar da descoberta de sua origem. Síndromes destinadas a um investigador. Ênfase na descoberta. Retirar os panos que cobrem o mistério.
Por esta razão caminha rápido. Não igual ao vento. Como ele mesmo afirma. É amigo do tempo, não da velocidade, embora seus apressados passos. Casamento consensual com a equação da relatividade no seu trabalho profissional. Quem e por qual motivo cortaria o braço esquerdo do Sr.Velasquez? No momento da amputação, ele dirigia calmamente pela orla, como de costume após às seis da tarde, olhando a paisagem, com o braço pra fora de sua mercedes.
Ir pela trilha de que alguém faria horrendo crime, tomando como base seu nome Velasquez, como pintor, seria por demais surrealístico, fora da escola velasquiana, inclusive. Pensar assim, caberia melhor numa estória em quadrinhos com os irmãos metralha amputando o tio patinhas. Atitude minúscula para um caso graúdo igual a este. Souza fez um levantamento completo da vida de uma vendedora de rua, de todos os seus amigos, esposo e família, para a qual o amputado senhor fizera um gesto obsceno num semáforo. Não havia nenhuma possibilidade para o inusitado golpe em seu antebraço. Em horas não ambulantes, ela e seu marido cumpriam religiosamente a função de missionários de uma igreja evangélica. Acima de qualquer ação a nobreza do perdão.
Velasquez não era daqueles homens de jogar pedrinhas em lagos, pelo bel prazer de mirar ondas multiformes se sobreporem.
Aquela mãozinha maldosa nas pomposas coxas da esposa do proprietário de um supermercado, na festa do clube.... não poderia ser por aí?
Corta-se bem rente a raíz danosa que estufa as calçadas! Souza mergulhou nesta alternativa por dois meses cansativos. Não encontrou nenhum fio de possibilidade neste notável acontecimento sob o banho das estrelas boquiabertas no céu. Em primeiro lugar porque o esposo estava mais para uma amante do que para a "passante". Em segundo lugar porque a madame delirava só em lembrar daqueles pomposos dedos em suas coxas.
Um outro aspecto desnudado: Velasquez, canhoto, pagava ou deixava de pagar com a mão esquerda aos seus funcionários. Uma análise esmiuçada jogou na primeira lixeira todas as dúvidas levantadas com esta suspeita.
Um ideia caiu como um paraquedista na mente perspicaz de Souza. Pescoçar detalhadamente os lavadores de carro da orla! Investigação demorada e de elevado quilate. Estes trabalhadores avulsos não carregam endereço, nome e se alternam em semanas. Mudam de posto ou barganham seus territórios, como dizem no popular. A sondagem atravessou estações. Disfarçado em vendedor de picolés, o detetive percorreu várias praia, com uma frieza maior do que seus produtos congelados. Conheceu de perto o ir e vir de cada um lavador. Até mesmo suas vidas íntimas. Como chegavam, onde guardavam seus pertences e quando saíam. Um suspeito bem moço, nem chegado ao barraco dos trinta, terminara seu trabalho às 19:00 hs. Banhou-se aos goles numa lata d'água. Colocou uma bermuda de marca com camiseta e tênis de carona. Fez sinal para um coletivo. Entrou. Souza ajeitou-se no banco de trás. Num salto, deu-lhe voz de prisão. Algemou-o fortemente, sem danificar o esplenderoso relógio rolex que retirara do bolso traseiro e mal fixara no pulso esquerdo.
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