sexta-feira, 20 de julho de 2012

EXORCISMO DE UM MOSQUITO

Quarto do hospital úmido e gelado. Um aparelho de ar condicionado com seu sono nasal dia e noite, ronca suavemente ao compasso da dor dos internos. A cena é fantasmagórica. Um para morrer, dois para partir. Pela máscara espartana no rosto de frente, percebe-se em que situação ficou o rascunho da face. Na poltrona da entrada um matemático cuida de seu pai, com o mesmo rigor de suas fórmulas incompreensíveis e hieroglíficas suspensas numa folha de papel. Uma louca ronda seu marido. Uma bíblia sobre a mesinha, outra sobre a poltrona e uma meia dúzia de bíblias e revistas evangélicas debaixo da cama. Por tudo e por nada clama pelo crucificado. "Em nome do martirizado colocarei este papel na gaveta!" "Em nome do crucificado beberei mais um pouco de água!" "Em nome de Jesus vou sorrir agora, embora não tenha motivo algum!" "Em nome de Cristo vou ao banheiro, mas não se preocupem que darei a descarga!" O pai do cientista, vendo aquela cena cômica naquele quarto gélido, teve uma ideia espetacular. Desligar o ar condicionado e abrir a janela para entrar uma brisa fresca e limpar o cheiro de remédios, soros, antibióticos, álcool, mofos de bíblias velhas, etc. Mas cuidou de não aborrecer a desmiolada. Com fogo, com sogra e com louco não se brinca nem um pouco! "Em nome de Jesus você poderia nos livrar de uma infecção e nos salvar abrindo a janela e desligando o aparelho de ar condicionado?" "Mas é claro! Prá já! Falou Jesus, tá falado!" Mal abriu a janela, uma mosca entrou no quarto. Ao passar perto da desequilibrada, o inseto enlouqueceu. Rodopiava no ar, dançava tango ao som dos gemidos e das respirações ofegantes. A loucura metralhou a cena. "Em nome de Jesus, sai mosquito deste recinto. Não quero que contamine a ninguém. Tá cortado! Tá expulso! Tá lavado!" Brandindo sua mão direita como uma espada sarracena golpeia o ar em todas as direções. A experiência da mosca é anterior à evolução humana. À loucura também! "Sai mosquito em nome de Cristo!" Parte daqui, roda dali. Escorrega no piso indo de encontro com uma velha que acompanhava seu filho, dando-lhe um beijo na boca sem querer. Ao olhar com os olhos esbugalhados para a criança, esta afundou sua cabeça no travesseiro, por não suportar a fisionomia da bruxa do 171. O matemático apresentou-lhe uma saída fantástica. Falou-lhe que Jesus havia dedicado a bilionésima fração de uma pequenina gota de seu sangue para toda a espécie de mosquitos do planeta. A desvairada não perdeu tempo e urrou: "Em nome da maionésima gota de sangue de Jesus, saia agora mosquito atrevido. Eu ordeno. Eu te excomungo. Eu te exorcizo!" A mosca não suportando o peso do ambiente, numa curva de pole position, vazou a porta e sumiu pelo corredor agitado do hospital. Nunca mais voltaria ali. A maluca olhou pro matemático e disse: "As tuas palavras de fé e de conhecimento bíblico, comoveram a Jesus!"

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