sexta-feira, 3 de agosto de 2012

SONDA URINÁRIA CAUSA PÂNICO

Damião era estranho? Minha gente, não é hora de discutir tal assunto. Digamos que sua timidez ou "segredice" chamasse a atenção até mesmo da múmia nefertiti. Até aí tudo bem. O problema damiâmico, pois o trataremos com todo o rigor científico, dado a suntuosidade do fato, é que ele foi urgentemente internado, tão subitamente, que se tivesse morrido de síncope cardíaca não teria dado transversos comentários, alguns diagonais cortando ângulos distintos de janelas distantes. Damiacamente ele recebeu alta hospitalar. Enquanto um carro o esperava no estacionamento, ele saiu empurrado em uma cadeira de rodas, com uma enorme sonda introduzida no pênis, com um metro e meio de lingua pra fora até alcançar uma bolsa amarrada em seu tornozelo. Vem aí a primeira cena desta dolorosa via sacra. Uma menina ao ver o vulto chegar em uma cadeira de rodas e sair andando repentinamente, com um mangote em volta do corpo, desembocando em uma bolsa com urina rosa, gritou para sua despercebida mamãe: "Mãe, olha lá um homem tocado a gasolina!" Damião ficou na dele. Havia muitos sinais e semáforos ainda pela frente a enfrentar. Três dias depois resolveu dar uma pequena caminhada em torno do seu esbelto prédio (única coisa a ser chamada de bela, naquela caótica situação). Uns trabalhadores não perceberam o referido cidadão, bem alojado atrás de um coqueiro. Um deles gritou: "Olha lá um pedaço de mangueira boa pra colocar no nosso fogão para esquentar nossas marmitas!". Damião deu um salto troglodítico de lado, enquanto um deles gritou: "Nossa mãe, um ser de outro planeta movido a gás!" Ele não se deu por coitadinho. No outro dia foi passear um pouco mais longe. Uma madame segurando um cachorro, por menos de uma polegada e meia, destroçaria o resto de polegada da mangueira "penísica" do supra citado. "Também, o senhor fica amarrando linguiça com mangueira, não é para menos!" Em casa o camarada só ficava falando: "Cuidado com a minha sacola! Ela é preciosa! Se chutar a minha sacola vai danificar o meu precioso!" A vizinha do apartamento ao lado, dotada da síndrome de Carolina de Chico Buarque, ouvindo aquela conversa estranha, deduziu que o bendito (a partir deste momento) havia acertado o top model da loteria federal. Ela, que nunca dera nem vendera um bom dia a ninguém, agora debruçava-se sobre sua janela e envergando-se como um vírgula maiúscula (será que existe?), num gestual japonês declamava: "Bom dia seu Damião, homem bonito de bom coração!". Ao que ele respondia: "Vai tomar quentão!". Ela satiricamente sorria. Como o texto neste momento está fugindo para a área da poesia, voltaremos ao contexto. Dois fatos forçaram Damião a isolar-se solitariamente em seu apartamento, esperando que chegasse o inusitado dia da retirada da sonda. O primeiro dele, foi num pequeno passeio quando um homem sob um carro, estica sua mão para arrancar-lhe a mangueira. O segundo, foi um drogado que a vê-lo saiu cantando: "De quem é este jegue? De quem é este jegue?" Uma espécie de Genival Lacerda das lendas urbanas. Mas nosso personagem precisava de exercitar-se, conforme conselho médico. Dançador exímio de valsas, não perdeu tempo. Segurando na bolsa com todo o cuidado clássico possível ressuscitou em Viena do século dezenove. O que ele não sabia era sobre um grupo de adolescentes que do outro lado da rua, de binóculos nas mãos, já estavam cobrando ingressos, para quem quisesse assistir à dança de um louco que se apaixonara pela bolsa exótica de sua amada.

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