terça-feira, 7 de agosto de 2012

SEXUALMENTE ESGOTADO

Nascer em uma família religiosa pode ser uma graça. Porém, se a religiosidade avançar pelo terreno do absurdo, para não dizer outra coisa, digo que pode ser sem graça. Jean veio à luz deste mundo pelas trevas da maior castração dogmática imaginavel. O grande olho de deus na interpretação de seus pais, era nada mais nada menos do que ficou rolando pelas esferas abstratas de suas mentes doentias, como um grande inquisidor, um perscrutador implacavel. Não o místico olho de Hórus, mas o globo ocular único de Torquemada, pairando sobre o caos de um mundo pecaminoso e ingrato. Uma retina que consegue perquirir além das paredes, dos muros, das lajes, perfurando como uma sonda infalivel o crânio, saltitando entre as entretelas da própria alma humana. Não, aquele Grande Arquiteto do Universo, Senhor do Amor e da Bondade, com seu olhar de ver tudo como belo e bom. Mas o olho do "invedere", daquele que não quer ver que é bom, daquele poderoso que deseja a destruição do outro, que se meandra pelos caminhos da inveja e da injustiça. Infelizmente, muitos o consideram como a própria divindade. Jean se masturbava três vezes por dia. Era a quota suficiente para apaziguar sua natureza adolescente. No início foi uma aventura simples escapada entre as dobras da cortina da janela ao ver uma desinibida mocinha caminhando pela rua. Cada um em sua fase submerge ao mundo das artes. Uns na meia idade com um copo de uísque e um olhar poético pela miragem de Ipanema, desatinam com um arranjo delicioso à garota imortal. Outro, numa simples veneziana da cortina desmonta-se num desabafo manual e atrevido. Ao ver-se nú diante do grande espelho de seu quarto, pensou: uma de manhã, outra às duas da tarde e uma terceira à noite. Três! Imediatamente veio o pensamento da santíssima trindade em sua mente. Três? Não, seria ofender ao "triunvirato divino". Sua mãe dizia-lhe horrores das pessoas que pecavam contra a santíssima trindade. Contra o pai? O filho? E ainda por cima o espírito santo? Não, jamais! Masturbaria mais vezes, mas nunca no número real da trindade divina! Queimar no fogo perpétuo do inferno eternamente só por causa de três passageiros prazeres diurnos? Não! Assim, passou a masturbar-se mais vezes, para ficar bem longe do maldito ou quer seja bendito em sua unidade, número três. Um dia, domingo de todos reunidos, seu pai exclamu: "Devemos perdoar não só sete vezes, mas sete vezes sete vezes sete! Assim exclamou nosso grande deus jesus!" "Nossa!" Pensou Jean: "Sete vezes! Isto deve ser uma mensagem vinda direto para mim! Estou pecando pelo número sete". Tamanho foi seu desespero que passava o resto do dia no quarto se masturbando, até quando contou treze masturbações diárias, deixando de lado os estudos, a vida pessoal, familiar e tudo o que fosse convívio social. Só não se masturbava quando sua mãe o levava ao psiquiatra. Por um simples cálculo chegou à conclusão que era a alma do próprio judas iscariotes, uma vez que se masturbava trezes vezes e jesus tinha doze apóstolos. Daquele grupo dos treze, um era santo e o outro traidor. Foi justamente isto que lhe ensinaram insistentemente. A saída? Comungar, comungar e comungar. Entrou na fila. Quando o padre murmurou: "O corpo de cristo!" "O corpo de cristo? Não, não posso! Não posso comer isto!" Saiu em disparada pelo corredor principal da igreja. Foi condenado como infiel. Mas os tempos das fogueiras da santa inquisição já passaram. Porém, foi excomungado em nome de todos os santos e santas do grande baú da igreja. Embora continuando o tratamento psiquiátrico, sem nenhuma melhora, trancava-se no quarto o dia inteiro. Aconselhado pelo médico a fazer uma terapia manual, pediu à sua mãe que lhe comprasse tecidos brancos, penas, arame, agulhas, linhas, cola e uma tesoura. Uma semana depois, numa sexta feira da paixão, com toda a família reunida, apresentou-se na sala, vestido de anjo. Decepado!!!!

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