quinta-feira, 9 de agosto de 2012

TOURO SELVAGEM NA CIDADE

Anacleto levantou-se mais cedo do que antes e correu para o espelho. Levou a mão até o alto de sua cabeça e tocou bem na ponta do chifre. Estava ainda pequeno, pois havia somente uma semana que nascera. Era um bebê num reino de caspas. Apanhou a lixa de pés, separou as mechas de cabelo e lixou caprichadamente a pontinha do corno. Pronto! Colocar a camisa, calça, sapatos, tomar o café e correr rápido para a consulta médica marcada para as nove horas. "Você precisa de parar com isto Anacleto! É apenas uma protuberância inicial! Vou passar um sabonete para lavar a cabeça e uma pomada. Mas pare de lixar isto, pelo amor de Deus!" Voltou triste para casa. Mais uma vez o médico não o levava a sério. Com uma coisa daquela nascendo na cabeça e ele não dando a menor atenção. Se fosse na cabeça dele, com certeza contrataria um sherlock holmes para vigiar sua mulher. Mas Anacleto confirmava consigo mesmo, era homem cabra macho. Agora, sem dúvida alguma, boi macho, touro cruzador, enxertador, reprodutor que a própria natureza por seu conhecimento sábio, adotou-o pelo cimo do couro cabeludo. Ele, como um bom filho de italianos, seria jamais traído, e com esta raíz cultural, deslanchava garbosamente que tinha direito a "dupla personalidade", uma brasileira e outra napolitana. Estava inclusive empenhado em obter este segundo documento. A idade não era seu maior obstáculo. Como bem dizia, "sou dos tempos em que se usava calças com supositórios longos, presos em forma de correias nos ombros!". O ano passado teve câncer na bexiga. A doença apareceu uma semana depois que morrera seu maior amigo. Foi uma dor insuportável, com infecção urinária generalizada, mas que não dava para ser percebida. Fez uma novena para nossa senhora da urina solta, sarando completamente em três dias, herdando dois calos cancerosos nos joelhos. Uma senhora ensinou-o um tratamento excelente com gelo: "É só o senhor apanhar vários cubinhos de gelo e colar em duas sacolas biodesagradáveis de supermercado e amarrar nos joelhos!" A preocupação com o chifre despontando a cada dia desviou a atenção do velho. Foi tomando banho à tarde, que ele percebeu o crescimento de seu cócix. O osso estava estufando em forma de um rabo. Rapidamente apanhou a lixa e começou a lixar o mesmo, evitando-o que crescesse mais. Por maior espanto seu, o pênis estava espichando e ficando escuro e os testículos crescendo como abóboras. Digamos, abóboras maduras na rama! Qualquer mulher que visse aquele espetáculo, cuidaria de adentrar-se em um convento e entregar-se de alma aberta e corpo fechado por hábito branco, a um sofrido cristo crucificado na cumeeira. O touro estava no embrião ainda. Comprou umas cintas de mulheres barrigudas e começou a usá-las bem apertadas. Sobrepos tres delas bem fixas o que dava inicialmente para andar nas ruas sem ser observado. Mas todo mundo dizia que ele andava como se tivesse todo borrado. Caminhava de lado, dançando uma valsa ao som de um tango. Pensou em fazer radioterapia a conselho de uma empregada do condomínio. Uma outra cortou a conversa dizendo que era preferivel a teveterapia, por ser mais moderna. Ele concordou em parte. Respeitou a fala das duas, pois nunca fez "assepsia de pessoas", como sempre afirmava garbosamente. Cuidou do chifre e do rabo diuturnamente, como cuidara de um tumor no fígado, que curara comendo sopa de cabeça de bacalhau, a conselho de um pedinte filósofo, que vivia sem eira mas à beira de uma sacada. As cabeças conseguiu-as via um caminhoneiro que viajava pelo norte do país. Mais tarde soube que as cabeças eram de ariranha, mas como estava curado não procurou desvendar o acontecimento a fundo. Os pés! Não, céus, seus pés estavam criando fendas como os de um touro selvagem. A lixa que era de pés, não servia para equacionar a situação. Comprou sapatos quarenta e quatro, para quem calçava trinta e oito, como uma solução imediata. Após sofrer seis enfartes e constatar que não tinha problemas nenhum no coração, haveria de conseguir uma forma de resolver sua iminente transcedência de homem para um animal quadrúpede. Quadrúpede? Espera lá. Única palavra "estrangeira" que conhecia perfeitamente. Este era seu apelido da época escolar. Sabia pois que se tratava de animal de quatro pernas, sendo jegue no seu caso de estudante, ou boi, cavalo, etc. Existe boi de duas pernas? Não, não existe em lugar algum neste planeta. Então seria melhor esquecer sua transformação bovina e cuidar de um câncer cerebral que com certeza estava se formando há algumas semanas. Mas o psiquiatra não ia acreditar nunca. Diria como sempre: "Você precisa de parar com isto Anacleto!"

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