sábado, 11 de agosto de 2012

O ÚLTIMO DIA DO FURACÃO

Um descomunal raio descendo como uma raiz gigantesca magnética e cor de prata, abrindo o horizonte ao meio, em zigue-zague e numa dança cruel, foi a abertura inicial da cortina do trágico palco. De um infinito ao outro as nuvens dançavam como dervixes tresloucados com bilhões de turbantes dançarinos, formando uma imagem parecida com a da via láctea numa girândola explosiva. Num estrondo ensurdecedor toda aquela volúpia desceu sobre a pequena cidade engolindo-a num flash de segundo e de forma tão instantânea que ninguém percebeu o que estava acontecendo. Muito mais rápido que um piscar de olhos ou do que a flecha que atingiu Aquiles. Mais veloz que o transporte de dados do computador hipermoderno esbanjando bilhões de megabytes. Com o impacto de dezenas de bombas atômicas ultrapassou de tal forma as razões do tempo e do espaço que os habitantes não tomaram consciência da tragédia que os acometera. Continuaram suas vidas mansas e calmas cuidando dos seus afazeres diários como em todos os dias de semana. O entregador de leite não deixou de cumprir com suas encomendas de leite engarrafados e engordurados sob o sorriso pacífico das donas de casa. Os homens calmamente amarravam seus cavalos à porta dos bares e com suas botas de couro de cano largo e seus chapéus de boiadeiro, pediam a pinga local que tomavam comendo torresmos e jogando os pedacinhos que ficavam entre os dedos para um cão solícito e agradecido. O padre tocava o sino pontualmente antes das missas das seis dos domingos sossegados para repetir a mesma missa, com as mesmas palavras, com o mesmo sermão...mas que diferença faz se as pessoas não iam além de si mesmas? A escola funcionava naturalmente. Nenhum professor e nenhum aluno se dava conta do que houve de trágico ou funesto naquela cidade. As aulas não se interromperam e o sinal batia pontualmente às sete horas da manhã e ai daquele que faltasse um simples botão em suas camisas ou de alguma menina que deixasse a barra da saia plissada sem engomar. O diretor sisudo e cabisbaixo controlava a todos os professores como um relógio de ponto marcando a última hora com um único ponteiro, sem dar tempo aos minutos e segundos. O turco permanecia atrás de seu balcão vendendo suas bugigangas e se houvesse alguém que reclamasse de suas quinquilharias ele apenas desabafava: "Vieram do Líbano, minha gente...Vieram de longe e são vítimas da distância!" Uma difusora velha com vários alto falantes, sendo um em cada esquina, nem estava aí para o ocorrido e convidava a todos para o baile dos formandos e nas entretelas de suas informações despejava seus comerciais dos produtos do lugar e da rendondeza. Certamente que muitas pessoas se aproximavam das cercanias da cidade para ver até onde o furacão despejou sua prepotência e sua ira. Fotógrafos de jornais das grandes cidades, juntamente com vários programas de televisão se alinharam nas montanhas circunvizinhas para mostrar ao mundo até onde a natureza expande suas garras e suas inquietudes. O pessoal da cidade não se importava com tudo aquilo, pois para eles era muito mais interessante viver o dia a dia do que se impressionar com a curiosidade alheia e aguçada dos habitantes das grandes cidades. À medida que o tempo passava a vida se tornou tão interessante atraindo o regresso de muitos que haviam deixado sua terra natal em tempos passados. Voltaram com muita saudade e chegaram com as mesmas roupas que partiram. Alguns vieram de terno e gravata e permaneceram assim como testemunhas do óbvio. Uma senhora voltou com um vestido de gala, maquiagem permanente e um par de sapatos vermelhos usados trinta anos atrás. Até mesmo jovens que abandonaram seus pais apareceram como de encanto, marcados de varíolas e sarampos, atraidos pelo fato novo, uma vez que ali nunca acontecera nada de surpreendente durante décadas. A dona da pensão preparou novos quartos que alinhavam-se vazios, pois os que regressaram estavam tão encantados com a nova vida, que preferiam andar pelas ruas por dias e noites que às vezes se sucediam ou não.

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