Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
SAUDADE E SOLIDÃO
Naquela casa no alto da colina, entre pinhos e ventos sussurrantes acomodavam-se todas as lembranças. Algumas debruçavam-se sobre as janelas semiabertas, rangendo ao compasso das brisas e olhavam para dentro de si mesmas independentes da paisagem e da bruma.
Outras dançavam ao som de nenhum violino externo, mas de um que guardavam num recanto de antigos bailes. No banco do jardim sentava-se uma cinquentenária recordação e tocava maciamente as mãos de uma dócil mulher vestida aos anos cinquenta com rolinhos nos cabelos sob o dourado sol matutino.
Aquelas subiam as escadas internas e vislumbravam em seus corrimões os dois meninos, cada um no seu respectivo lado, deslizando sorrindo e disputando quem ia chegar primeiro.
Um relógio bronzeado na parede contemplava boquiaberto o desaparecimento do seu tagarela cuco marcando horas pontuais e alegrando no passado o agora tão sombrio recanto.
Uma grande mesa vazia falava de si mesma quando era plena e farta. Na época em que o anfitrião sentava-se em sua cabeceira, desenrolava o guardanapo em frente aos talheres, enquanto aguardava o prato principal, após ter saboreado garbosamente a entrada.
Os livros da biblioteca amarelados de recordações vividas, vislumbravam mãos que os tocavam e os abriam, assim como olhos que passeavam suavemente sobre suas estradas pavimentadas de letras e informações diversas. As surpresas que muitos guardavam para o final da leitura, sentiam-se pálidas e sem graça.
Naquela casa diálogos remotos perpetuavam-se e competiam com os pingos de chuva lá fora a posse do som principal.
Passos caminhavam como dedos passeando sobre o teclado de um velho piano ao canto. Sob seus compassos o assoalho de peroba fundia-se numa única sinfonia. Retratos nas paredes contavam estórias passadas luzindo um palco vertical de atores mudos, sisudos. Alguns compostos em terno de casimira. Mulheres dispostas em longos vestidos de cambraia ao lado de crianças amedrontadas e amordaçadas por seus suspensórios.
O movel em forma de cabide ostentava chapéus de panamá, capas de chuvas distantes, cachecóis de damas vaidosas e bengalas de ricos senhores que chegavam em seus coches para discutir no passado as intrigas do império. Lembranças estas que eram passadas de pais para filhos.
Outras sopravam as brasas no resistente fogão a lenha com sua tradicional chaleira de café sempre quentinha para preencher as xícaras de agate.
Do sótão recorda-se de outro horizonte. Um que era azul e rosa como fundo de tela de pássaros esvoaçantes e tecedores de ninhos sob o telhado.
As camas sustentavam sonos pesados e outros segredos que não se contam a ninguém. Noites que se avolumaram no crepitar das ondas mágicas das horas diluidas no tempo longinquo.
Cortinas de tafetá esquivavam-se das teias de aranha para reviver redemoinhos de recordações.
Finalmente, o idoso fecha a porta da sala e sai cabisbaixo pela estradinha da colina. Não se sabe quando regressará. Até lá a casa nem mal assombrada fica. Resta-lhe estar vazia, fechada, sem ninguém e sem lembranças a serem revividas.
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