quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

AMOR IMPOSSIVEL

Nascer raimundamente como um nordestino não é sinal dos tempos. Não é vinda de maytreya. Não é alvorecer da era de aquárius. É coisa muito simples. Singular até mesmo no plural. Mas o que pode acontecer para quem nasce nesta quimera condição, vai variar conforme a composição do casaco com a calça social. Absurdo! Qual o problema então? Não pode ser absurda a verdadeira realidade? Raimundo nasceu deste tipo. Hay gobierno nesta tierra? Soy contra! Surgiu cabeçudo. Cabeça redonda e achatada cansada de arriar moringa e balaio, partiu pra são Paulo, como todo bom andarilho do êxodo regional. Mas veja: sem líder algum e sem casta sacerdotal para encher-lhe o saco. Inclusive sem maná. Se caiu alguma coisa do céu, foi algo que veio debaixo para cima como pão amassado com o rabo do diabo. Foi para o festival chapliniano fabril. Embolar-se com as engrenagens e compreender que somos mais polegadas do que milímetros. Ainda somos culturalmente tecnologizados à La inglesa. Na educação, nada adiantou o esforço francês. Napoleão não chegou até aqui. Junot só ficou a ver navios. O que chegou até aqui, primeiramente disputou com os ratos dos porões das galeras. Depois com os ratões da política. Supletivo à noite, outra válvula de escape para a morte salarial. Todos os dias lá naquela escola caindo aos pedaços. Sem água, sem banheiro, sem. Quando a professora soletrou Drumond: mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria rima e não seria a solução, Raimundo quase caiu da quase cadeira. Só não caiu porque a quarta perna da cadeira fora improvisada com uma fila de lajotas. De lajota ele era profissional. Tão profissional que quando a professora lhe perguntou se lajota, se escrevia com jota ou com Ge, pergunta muito sábia para uma noite de verão, Raimundo repondeu que preferia engolir uma lajota do que ficar pensando num trocadalho deste. Mas se o mundo era tão vasto e não tinha solução, o que veio fazer neste mundo, uma vez que ele era Raimundo? Foi quando a professora lhe respondeu: mais vasto é o meu coração! Tentando fechar Drumond no verso completo. Mas se o coração dela que era tão pequeno como poderia ser maior do que o mundo? Para o seu coração teria solução? Se ele realmente fosse maior do que o mundo, com certeza. Mas aquelas pernas bem torneadas de cabra montanhês, aqueles seios em forma de pera, aquele corpo de sereia sob o vestido coladinho, onde ficariam? Talvez ficassem bem longe. Como a sanfona nordestina. Como a saudade do sertão. Como o chapéu de couro. Como a literatura de cordel. Tudo isto que ficou dentro do seu coração raimundino. Então não valeria a pena. Não poderia dançar um forró. Não poderia estalar-se debaixo do sol. Ele um retirante nordestino. Ela uma intelectual paulista. Mais um amor impossivel. Não se pode amar uma santa. Amor tem que ter um pouco de sacanagem.

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