Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
O perfume da sabedoria
Ferdinand fabricava seus perfumes com o aroma de sua alma. Desde novo, premiado pela sorte da presença de um grande mestre fabricante, ele adentrou-se por este ramo com a curiosidade de uma criança permanente. Aprendeu a tocar violinos para perceber como saíam os sons das cordas e da madeira no encontro com o ar e não perdia um concerto de piano observando atentamente as mãos deslizando como dançarinas sobre o teclado, o movimento das teclas e o som inundando o ambiente.
Passeava pelos bosques e sentia profundamente o cheiro advindo de cada arbusto, chegando ao nível de perceber a vinda da primavera por eles. Conseguiu captar sua fragrância e notou de imediato que ela era feminina e de uma sensualidade extrema. Do reino mineral captou as mais indizíveis experiências, pois ele também produz seus aromas, em níveis bem sutis e despercebidos pelos incautos. Assim como há sons e cores que não passam pela nossa observação, por causa dos graus de suas frequências.
Fazer perfumes é andar com sapatos de seda no reino da sedução, com movimentos tão singelos como caem as plumas mais doces em suas danças no ar. É como viver a vida como ela não é na aparente e dura realidade, adornando de alquimia cada momento vivido. Maestria, perícia e conhecimento são as bases fundamentais para a criação dos mesmos.
Saber que meia dúzia de gotas seria em algumas circunstâncias, suficiente para brotar o erotismo em eternidades de amor. Outras gotas despertariam a paz interior, aquela que não se encontra no burburinho do mundo. Sem falar em algumas que elevavam o astral e a auto estima.
Não é difícil de entender que nossos sentidos formam um conventículo comum onde arquitetam a sua inconfidência. Portanto, não é o simplesmente ver que nos faz ver. Não é o simplesmente ouvir que nos faz ouvir. Não é o simplesmente tocar que nos faz ciente. Não é o simplesmente alimentar que nos faz conhecedor do sabor verdadeiro.
Portanto, o exercício refinado do olfato pode conduzir um ser humano a caminhos insondáveis. Nós sabemos que uma rosa é uma rosa, não somente porque a vemos. Também porque já tocamos, já sentimos seu cheiro. Então há uma convenção única entre os sentidos quando se chega a uma conclusão sobre algo.
Ferdinand despertou um dia, plenamente, quando se esforçava ao máximo para recriar artificialmente o cheiro de um musgo, pois como vocês devem saber o fabricante de perfumes tanto se utiliza do meio natural como do artificial, sendo este último mais difícil e complexo, porque exige o mais alto grau de intuição e perfeição.
O que se passou na cabeça de Ferdinand foi a seguinte pergunta: poderia haver o perfume por si só independente do objeto de sua origem?
Pergunta aparentemente simples mas de uma profundidade inteligentíssima. Se houvesse este perfume, com certeza ele seria a matriz de todos os perfumes existentes. Seria como encontrar o teclado mãe de todas as notas musicais, de onde surgiram todos os teclados e notas.
Só que este perfume com caráter cosmogônico de princípio não poderia ser encontrado em nenhuma substância em si, por isto ele resolveu se recolher em seus aposentos para meditar. A mesma questão começou a variar à medida que pensava.
Pensamentos como se era possível existir a beleza em si mesma. Ora, a beleza só existe naquilo que é belo. Mais complicado ainda: qual aquilo era e não era belo? Pois um veria aquilo belo e outro veria feio. Então estaria a ideia da beleza confusa?
Ferdinand achava uma moça muito linda e seu colega não concordava em nada com ele. Bom para ele. Mas não tão bom assim. Estaria ele ou o colega confundido a beleza?
Mas a bondade por exemplo, poderia levar a uma confusão ao ser avaliada? Haveria algo no mundo sem a forma? Não nos é possível pensar em algo que não tenha forma. Não existe existência separada.
Ferdinand chegou a conclusões fantásticas. A primeira delas foi que as coisas existem em relações. Por exemplo, há o belo, mas ele só será percebido na relação com as características e necessidades do outro.
Uma coisa só existe em relação à outra. Se todas as coisas fossem uma só neste mundo, não existiria este mundo, pela ausência do confronto ou do conflito.
A bondade por exemplo, pode ser sentida pela maioria porque ela está num nível hierárquico. Não há como duvidar da santidade de um santo. Mas pode-se duvidar da beleza de uma mulher, porque ela já necessita da relação da individualidade do outro.
O perfume deriva das relações múltiplas de sua origem e do observador. Uma coisa está provada. Até mesmo na dureza das pedras há um rastro estelar perfumado dos pés do incognoscível.
Ferdinand ao começar a fabricar perfumes com os acordes de seu coração fora premiado pela fonte da sabedoria.
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