segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O BONECO MAQUIADO

Souza chegou em um momento de sua existência a compreender que ele poderia até morrer vivendo, mas que de forma alguma aguentaria a continuar viver morrendo. É como aquele ponto da estrada, onde há de um lado um atalho e de outro lado uma vereda e que de ambos vem um suave aroma impelindo a uma decisão suprema. Não poderia imaginar uma despedida final depois de todos os corações se partirem em dois e duas multidões regressarem contando casos aos seus lares na última despedida de uma tarde chuvosa. Um dia de nunca mais para ele. Percebeu que depois da morte é ir sem vida, silencioso, mudo, sendo o único que não pode se despedir dos outros e que não deve estar ausente ao evento inevitável. Outra coisa que doía muito é saber da impossibilidade de mascarar ou disfarçar este encontro. O mais certo denominá-lo desencontro de um com o encontro de todos. Situação devidamente deplorável, pois quando se está vivo pode-se despedir com tudo, de um ou de muitos, ainda se julgando o tal, o superior, o acima de todos. Dar-se ao jogo de fantasiar-se de trigo e mascarar o resto de joio. Estando morto conservaria a condição de único exilado. Enquanto o resto permaneceria pátrio? Não! Nem uma coisa nem outra. Nem morto, nem vivo. Inclusive nem vivo morto e nem morto vivo. Deveria haver alguma outra opção além das quatro acima citadas. Não há tantas opções hoje em dia para tudo? Fala-se inclusive em dez tipos sexuais. São escolhas que qualquer cidadão livre e democrático pode fazer ainda em vida com todos os seus direitos assegurados. Souza sentia-se muito mal. A carga da vida sobre suas costas era um fardo de mil toneladas e carregá-la durante anos e não conseguir se desfazer delas nem durante o sono, não era mais suportável. Mas também não queria ver-se morto. Ver-se? Não, ele não iria ver-se, mas seus pré-pensamentos aquilatavam perfeitamente o posteriori dos fatos. Dizem que há solução para tudo. Não sabemos se há solução para todos. Ainda cabia em sua cabeça uma vesga de pensamento e foi por este espaço intralinear que veio a grande ideia, segundo ele naquela situação desesperadora. Mandaria um escultor fabricar um boneco igualzinho a ele. Na forma que ele ficasse caso viesse a morrer. O artista caprichou com tanta perfeição, que por mais um pouco fracassaria o plano de Souza. Ele quase morreu quando se viu a si mesmo boneco morto. A segunda parte do plano foi mais fácil. A compra do caixão não durou mais do que meia hora. O vendedor achou estranho, pois se o morto era a pessoa mais querida do comprador, conforme ele mesmo afirmara, o mesmo não se preocupou demasiadamente com a qualidade do mesmo. Foi uma surpresa, mas elas existem também nos dias mais banais. A terceira parte do plano foi a mais complicada. Não chegou em casa às sete como de costume. Nem às oito etecétera e tal. Todos foram dormir, inclusive bem preocupados. Souza alugara um carro, com documentos falsos. Ele mesmo os fabricou no computador. Ele já possuía vários documentos como outras possibilidades de ser. De ser de vez em quando e voltando a não ser. Colocou o caixão na porta da casa, com um recado escrito por um mendigo, que Souza recompensou muito bem com um pedaço de pão e depois um chute no traseiro. O bilhete dizia: “Este foi o último sonho de Souza. Morrer longe de casa e não dar nenhum trabalho para a família. Não abram o caixão. Apenas se despeçam com pétalas de flores jorradas sobre o vidro diante de seu rosto!” Não é que a coisa deu certo! Os familiares já estavam cansados de ver seu de-semblante noturno. De longe, Souza acompanhou seu enterro. Presenciou todas as lágrimas. Inclusive as de crocodilo. Estava todo disfarçado e postiço. Encontrara momentaneamente a quinta opção. Poderia vivê-la integralmente, com o seu novo documento e disfarce. Até que a morte os separe.

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