domingo, 9 de dezembro de 2012

CADÊ MEU MARIDO?

Cidinha era uma mulher extremamente vaidosa. Daquelas que não saem de casa sem acompanhar os últimos retoques. Paranoia de beleza? Dizem os grandes psicólogos que a paranoia só pode ser definida como tal quando começa a incomodar ao sujeito ou adjacências. Por exemplo: um paranoico numa festa passa o tempo todo catando guardanapos, copos que caem no chão e não veem a festa acontecer. Depois reclamam que a mesma foi ruim. Não participam da mesma. Não sabem fazer uma única limpeza no final. Economia de tempo, enxugamento das horas e participação global não estão no costume do paranoico. Voltemos a Cidinha. Suas calcinhas são escolhidas com o esmero de um joalheiro. Os biquinhos de renda são tão perfeitos que parecem importados diretamente do céu. Algumas destas peças contornam a cintura como um colar de areia emolduram uma praia sensual. Outras são curvilíneas e pequeninas também. Imitam o símbolo do universo. Microcosmos cobrindo o macrocosmos. Cores das mais variadas possíveis. Com as principais se mesclam reproduzindo impressões inesquecíveis. Imaginem seus vestidos! Os curtos expoem suas belas pernas bem tratadas e bendizem a natureza que as fez. Quando ela anda, eles se colocam em seu devido lugar, de forma a resplandecer o que de mais belo ela tem ao andar. Assim toda a rua se transforma numa passarela de moda. Os longos resplandecem as festas noturnas. Como a noite é sábia! A noite é tão antiga que acalenta todos os mistérios. Suas vestes longas são completamente cúmplices do pudor noturno. Ah! Quando ela passa assim, não há coração que aguente! Mas não estamos aqui somente para descrever Cidinha. Vocês já perceberam que ela é uma mulher sensacional. O problema proposto é outro. Caso acontecido tem que ser narrado no original. Suas roupas estão sumindo dentro de casa! É isto mesmo. Estão desaparecendo todas. Digo, aquelas mais sensuais. No início ela desconfiou da diarista. Deixou algumas como se estivessem esquecidas num canto. Mas em três meses não sumiram. Desapareceram outras que estavam bem trancafiadas. Mesmo as guardadas a sete chaves. Descartou a pobre moça que vivia simplesmente Maria com sua única riqueza que era a sua honestidade. Mas poderia ser o pintor? Pois bem, ele as roubaria com que sentido? A pista está aí! Presentes para a namorada! Cidinha pagou um detetive excepcional para desvendar o fato. Ele acompanhou o pedreiro por trinta dias. Não! O rapaz inclusive era evangélico e pregava à sua moda numa igreja do seu bairro.Podia até dizer que Salomão guiou o povo hebreu pelo deserto durante a escravidão na babilônia, comendo somente as vacas magras do faraó e deixando a mulher dele em paz, mas roubar peças íntimas de uma mulher... Jamais!!! Cidinha insistiu em descobrir quem era o ladrão ou a ladrona de suas intimidades. Apareceu uma outra possibilidade. Algum trabalhador que já tivesse estado em sua casa, que não fosse o pintor. Alguma pessoa que houvesse fabricado os armários embutidos. Um outro que instalara as fechaduras também não poderia descartar. O rapaz que fizera umas correções no sistema de gás. Ih! Quem sabe o cara que faz a manutenção dos aparelhos de ar condicionado? Um deles poderia possuir uma chave mestra e entrar na casa enquanto dormiam. Foi assim que Cidinha teve uma ideia extraordinária. O detetive continuaria a trabalhar no caso e ela faria o papel de doida. Alguém iria se prevenir em suas ações com uma louca? Com uma mulher assim não precisaria ter nenhuma cautela. A insinuação foi tão perfeita que o próprio investigador acreditou na sua farsa. Cidinha não penteava seus cabelos. Passava o batom nas orelhas. Vestia as cortinas e pendurava suas camisolas na janela. Calçava um chinelo num pé um sapato de salto alto no outro pé. Guardava frutas em sua bolsa e colocava joias na geladeira. O circo estava armado. Passou a dormir nos quartos do fundo. O quarto das ditas secretárias. Uma noite escutou um suspiro. Longo e insistente. Vinha do quarto de casal. Uma música romântica escapava por debaixo da porta. Nas pontas dos pés, ela tocou na maçaneta e abriu-a rapidamente. Na cama de casal morrendo de beijos e carícias estavam seu marido transvestido com uma de suas mais exuberantes calcinhas. Agarrado com ele como caranguejo na corda, sabem quem era o artista? O detetive! Descabelada, passando batons vermelhos nas orelhas, descalça com um semblante em pânico, Cidinha é a mais nova noctívaga da beira mar.

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