Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Gostar em dois é sincronismo puro.
Assim, um pouco menina, ela ficou quase a tarde inteira na estação. Meia tarde, meio palmo entre o dia e meio. O casarão velho e bege com antigo telhado de telhas cumbucas, curvadas no dorso da existência, evocava-lhe à lembrança páginas de antigas vivências. Suas janelas marrons com vidros embaçados pelos vultos que de lá dentro não contam mais nos dedos os seus desencontros.
Digamos que a tarde é cinza e que sopra uma brisa de uma nota só sobre umas pedras ciganas que se acamparam num canto da rua, desde quando a antiguidade não era tão distante.
Ela ama esta tarde. Conta os pombos que saltitam no manjar de algumas migalhas esparsas entre os trilhos e o calçadão da estação. Ela ama aquela pequenina rua que desemboca na aldeia como um inusitado rio que busca ancoradouro em torno de uma ilha.
Ela também é uma ilha rodeada de mãos de adeus. Solitária ali naquele lugar, abre sua alma para alguns flamboyants que dão flores e ninhos encantadores, para cobrir o daqui a pouco da tarde com os cantos melodiosos dos passarinhos.
Ela ama os pássaros. Eles simbolizam a liberdade. Eles são o protótipo do ir e vir sem embargo. Eles são como trens que não se subjugaram ao sacrifício dos trilhos. Estes, sendo dois são a única estrada naquele recanto distante e esquecido.
Como proclama a sabedoria popular, em casa de cego quem tem um olho é rei. Aquela estrada de ferro por mais dura e repetitiva que fosse, era a única possibilidade de se encontrar no lado de lá, bem por trás das várzeas e das montanhas, o que no lado de cá era pequeno e estreito.
Foi quando ela dançava nos átrios de seus pensamentos que ele chegou. E apareceu como por encanto. Surgiu como nas estórias de contos de fada. Veio completo. Não precisava de dar um beijo num sapo para encontrar sua alma gêmea. Não foi necessário que o príncipe subisse as escadas de uma torre e através de um beijo a renascesse de um sono de cem anos ao lado do tear.
Mas foi romântico. Inesquecível e gravado eternamente em sua memória. No seu espírito, sua recordação ficou impressa como as marcas das civilizações sobre as pedras, os muros e as paredes dos templos.
Veio como quem vem por encanto. Um chapéu redondo na cabeça. O casaco para enfrentar o frio era azul claro. O relógio de corrente, convidava a só ver as horas lá uma vez ou outra. Relógio de algibeira complementava aquele encontro tão romântico à moda antiga.
Ele sorriu um sorriso tão doce que perfumou sua alma com maná de alfazema. Suas palavras macias surgiam como sons musicais de um piano com seu teclado mágico. Palavras de amor e de ternura que mergulhavam no fundo de sua alma com as cores dos caminhos floridos.
Ele a tocou em sua mão direita. Um toque de vara de condão. Algo que incendeia na noite dos acontecimentos como o brilho de todas as estrelas. Quantos universos se entrelaçaram naquele momento.
Quantas emoções se refletiram naquele instante. Quantos sentimentos de ternura suspenderam sobre o ar. Eles se olham agora diante do mar. Quantas vezes se olharam assim?
Ah! Quantas vezes! O olhar, sim o olhar, o único que permanece para sempre em todas as experiências de vida.
Os dois olhos já não são mais aqueles dois trilhos desertos. Os dois olhos de cada um são como dois caleidoscópios espelhando os ângulos de todas as curvas dos caminhos.
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