Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Cada louco com a sua Maria
A impressão que temos neste quinto conto é que estamos chegando ao sótão. Então é preciso descer um pouco os quatro degraus até a ressurreição nos escombros, para que compreendam o que se passou provocado pela cachaçagem do Vasquez.
Trataremos nesta página de levantarmos o histórico de Elpídeo, aquele chefe que dançou um xaxado ao som de uma valsa, quando o apenas chegado e logo despachado ao som do susto, um jovenzinho querendo colocar o pé na estrada da vida, passou por ele a mil, no estilo ai se eu te pego, ou melhor emoldurando, ai se aqueles dois me pegassem.
Elpídeo com sua pasta vazia em um das mãos e o cigarro na outra, psicologicamente analisando, era o pináculo da timidez. O vazio à esquerda como uma réplica de sua reclusão esmagada entre a totalidade do mundo exterior e a pequenez de seu mundo interior. O cigarro apagado na outra mão, como um ponto de apoio para recordar que algo poderia brilhar a qualquer instante, mas não refletia luz alguma. No bolso do paletó o retrato de sua Maria.
Elpídeo, tu pedes, ele pede, nós pedimos, vós pedis, eles pedem, como cantarolavam na escola seus colegas salientes, num tempo de brilhantina na cabeça. Época em que a língua portuguesa era ensinada mesmo, cobrada mesmo. Não como nos dias de hoje em que os alunos terminam o ensino médio, escrevendo célebro. Com que massa cerebral? Quanta celebridade!
Mas como ninguém consegue transcender aquilo que não conquistou, certamente que ninguém conseguirá ensinar aquilo que não aprendeu corretamente.
Elpídeo, repito o nome, não porque vocês pedem, mas por necessidade mesmo de deslanchar esta incrível estória; conseguira aquele emprego de chefe do IML via um deputado federal, mão dupla com um deputado estadual enrolado com um vereador. São coisas da política. Vocês sabem que política não dá para nós entendermos. Nem nós escritores, nem vocês leitores. Estamos em outro mundo. Vivemos no reino da cultura e da arte. A política do nosso reino é totalmente diferente.
Introvertido ao extremo interno, amava filmes de terror. Foi por este engate do capitão gancho que ele travou uma monótona mas rendosa amizade com um vereador do bairro, que havia sido eleito em decorrência do seu nome Ronaldinho exposto em todas as esquinas urinadas por cães que arredondavam o bairro.
Daí foi um pulo para galgar de supetão aquele cargo público. Não sabia nada do setor. Não tinha a mínima noção do que se tratava. Tinha plena e santa consciência que era um posto de chefia, somente. Não foi informado de quantos funcionários trabalhavam ali ou se não havia funcionário nenhum, pois não faria nenhuma diferença. Quando o espinhento rapaz passou naquela velocidade por ele, com certeza chamou-lhe profundamente a atenção, já que como lhes disse, ele era muito tímido.
Telefonou imediatamente para o setor de pessoal, procurando informar se algum vigia noturno dormia nos fundos do instituto, uma vez que não tinha nada para vigiar. A resposta foi imediata. Não! Aí só dormem defuntos. Como uma espécie de brincadeira de mal gosto para uma segunda-feira de sol, completou: “Abre o olho que está fugindo defuntos daí!”
Vocês não tem noção de como Elpídeo desligou o telefone. Vocês tem que compreender que ele passou a maior parte de sua vida assistindo filmes de horror. Vocês precisam de aceitar que ele não nascera para ator principal de nenhum deles. Portanto, se algum dia vocês o virem por aí, com o paletó rasgado e no bolso uma meia Maria, com os olhos arregalados, o cabelo cheio de lixo, profetizando o fim do mundo, com uma pasta vazia em uma das mãos e um cigarro apagado na outra, pelo amor de todos os anjos, não riem. Não riem.
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