Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Primeiro momento de uma transformação
Da faculdade pra casa. Da casa pra faculdade. Do quarto pro quarto. Pro quarto. Sua mãe, seu pai, sua irmã (namoradeira como ninguém já viu), para arrancar uma meia duziazinha de palavras da de sua boca, só com um gol olímpico!
Célio? Não! Quem tiver um dedinho assim para comentar o seu passado, está falando demais.
Permanecia a família reunida na sala quando escutaram um miado. No início foi apenas um desabafo felino que rasgou pelo meio o vestido de noiva da noite. Até aí tudo bem. Veio da área? Pode ser do estacionamento! O vizinho! Com certeza! Eles adoram animais. Eles só não adotam uma maritaca porque a mulher dele por si mesma já basta. Eles tem um cão. Espera aí. Um cão? Este bicho urinível não combina com bichanos!
Neste momento escutaram outro miado. Mais profundo e lamentoso. Um gato com fome? Um gato querendo fazer sexo com sua própria sombra? O fantasma de um gato? Gatos não tem alma, exclamou a irmã agora ruiva, ontem morena. Começaram a olhar por debaixo dos móveis. Sob a pia da cozinha? Na área, dentro de um balde? Não! Gatos detestam baldes. São depósitos de água.
O gemido deste momento foi de raiva extrema. O miado, já que saiu da boca do tal felino. Mas onde estava o felino? Se somente a mãe estivesse ouvindo, com certeza é porque havia esquecido de tomar seu remédio diário, que já chegava aos alqueires de oito miligramas. Isto para um cálculo profundinal, pois uma milagrama apenas seria o suficiente ao peso de uma marretada de cinco quilos no alto da cabeça.
O barulho vinha justamente do quarto de Célio. Correram para conferir. Os paquímetros da curiosidade checaram. Surpreenderam de frente ao rapaz andando de quatro pés no chão. As costas onduladas para cima. Os olhos fixos. Inclusive com duas lentes verdes. Os pelos arrepiados como lanças do exército de atarxexes.
O rapaz com a mão direita em forma de garra, com enormes unhas postiças e prostitutinais tentou arranhar a perna do pai. Este deu um pulo pra trás (como um gato, mas nem tanto). Sai fora meu cara. Não sabe que já fui goleiro? Vai arranhar a perna do capeta! Aí Célio fez um olhar muito triste, que deixou sua mãe derramar mil sorrisos.
Pára com isto Célio? Célio? Quem disse que sou ele? Sou um gato. Meu Deus chama a vizinha para exorcizar este demônio que incubou o meu filho! Pai, não tem demônio gato! Os gatos não tem alma! Mas chama lá minha filha.
Em seguida chega a vizinha pra orar. Da metade pra cima doida. Da metade pra baixo maluca. Louca completa. Com duas filhas descabeladas. Meus Deus, que foi com você Célio? Não sou Célio não! Sou um gato! Um gato você sempre foi meu querido. E deu aquele olhar de viés para a filha mais velha.
Sou um gato de verdade. Eu quero comer uma barata! Foi o suficiente para a mulher e as suas duas filhas correrem até amanhecer o dia. Eram beatas demais para verem profanado o seu templo.
Mãe, já que ele é um gato, vamos primeiramente tratá-lo como tal. Vai lá, filha. Traz um pratinho de leite pra ele. Célio lambeu o prato inteiro. Depois com a mão esquerda, ou melhor a patinha esquerda afastou o prato e continuou a engatinhar e miar baixinho. Coitado, nosso gatinho estava com fome.
Quero comer uma barata! Mãe vamos tratá-lo com carinho. Nós nunca tivemos um animalzinho de estimação dentro de casa.
Célio as olhou com o olhar mais carente deste mundo.
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