terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A rainha do bumbum

Soninha nasceu uma princesa. Linda, no berço brilhava mais que a vidraça dourada da luz do dia. Todos vieram vê-la. Brincaram em sua volta e de sua mãe. Seu pai não a conheceu. Nem soube que ela nascera. Cresceu rapidamente. Tão rápido que não viu sua mãe sumir. Desapareceu sem dar-lhe o último beijo. No início pensava que ela era como uma estrelinha do céu. Aparece à noite e depois desaparece. Mas reaparece. Único tempo da inocência mais pura. Sim, às vezes sua mãe chegava subitamente tão bêbada que quase a atropelava. Depois sumia. Como as nuvens do céu. Passavam meses, voltava. Em algumas ocasiões nem percebia sua presença. Soninha foi vivendo com a meia avó.Meia, porque a outra metade fora consumida pelo álcool e pela vida noturna. Uma existência após a outra se repetindo. Como um galho de árvore que cai em um redemoinho do rio. Soninha fez as primeiras séries iniciais nem sabe como. Sabe que não sabia nada. Nada de matemática. Nada de português. Nada de ciências. Artes nem pensar. Nada de nada. Mas passou. Enfim, tudo passa. A educação leva esta afirmativa à risca. Coloca em prática acima de tudo. Tudo passa? Então todos passam. No ensino fundamental Soninha já possuía o melhor celular da escola. Também roubado, quem diria! Na sala de aula ela atendia às chamadas ininterruptamente. Quando o professor a advertia, dizendo que precisava de lecionar sua disciplina, ela respondia: Pera aí Prô, pera aí! De pera aí prá lá e prá cá ela se tornou a personagem mais solicitada da coordenação. Mas não deu em nada. Onde não há família presente, não é possível educar um ser humano. Soninha começou a aprender a rebolar. Foi crescendo e encorpando. Era a rainha das danças. O negócio é dançar. Pra quê estudar? Ler? Nunca vi doidice maior do que esta! Poesia? Cruz, me dá náuseas. Artes? Sai desta. Tô fora! Rebolando prá lá e prá cá e tomando anabolizantes Soninha começou a desenvolver um bumbum de tumultuar o trânsito. Assim, era chamada para dançar por todo canto. Dançar em feiras. Dançar em parques. Dançar em praças. Encontrou seu caminho via bumbum. Nesta jogada atingiu o pole position de seis abortos. Abandonou o ensino médio no primeiro ano com o primeiro namorico que resultou em confusão e conflito para ambos. O bumbum foi crescendo. Tomava remédio para inchar o traseiro. Começou a ser fotografada para revistas e jornais. Ganhava e perdia dinheiro no vai e vem de seus amores incompletos. Um dia sentiu-se surpreendida. Ela havia esquecido do seu próprio rosto. Lembrou-se que tinha uns lindos olhos verdes que pareciam duas folhas de oliveira balançando na primavera. Recordou que suas sobrancelhas arqueadas eram dois horizontes que se encontravam. Seus cabelos caídos pelos ombros onde estavam? Seus lábios, barco sedento à procura de novas aventuras, onde estavam? Doravante iria procurar pelo seu rosto por toda parte. Assim ela saiu pelas ruas olhando as faces das outras mulheres para encontrar a sua. Mas não era. Era um semblante totalmente diferente. Olhar penetrante de intelectual. Rosto de quem havia estudado. Completado um curso superior. Não era seu. Não lhe pertencia. Continuou buscando. Uma decepção após a outra. Aquele não. Nunca seria o seu. Uma mãe afetuosa beijando sua filhinha no shopping. O outro rosto também nem chegaria perto de ser o seu. Uma senhora séria passeando com seu marido e seu filho adolescente. Mas onde estava seu rosto? Pelo amor de Deus! Seu bumbum não lhe deixava ver seu próprio rosto. Ele era um himalaia sobre sua vida. Só conseguia ver seu bumbum. Os espelhos e as vitrines do shopping refletiam seu enorme bumbum e ainda alguns olhares inquietos sobre ele. Apanhou o primeiro coletivo. Entrou rapidamente e sentou-se lá atrás. Longe de todo mundo. Inclusive daquele olhar safado do trocador. Saltou na sua longínqua periferia. As mesmas crianças de sempre gritando: Lá vem Dona Tanajura! Dona Tanajura! Dona Tanajura. Tentando esconder seus cacos de olhar entrou rapidamente em seu casebre. Fechou-o por dentro. Lá fora a chuva caía. A casinha aberta pra fora. Dona Tanajura! Dona Tanajura! Limpou suas lágrimas num pano de prato. Chuva e tanajuras! Tanajura? Inseto que nunca conhecera, nem brincara com ele. Ficava, na sua infância, dançando horas e horas, sob as palmas de sua avó, a musiquinha da garrafa!

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