sábado, 29 de janeiro de 2011

LE CHARME DISCRET DE LA BOURGEOISIE

A rica e numerosa família janta à luz de velas, exibindo suas jóias e seus sarcasmos, fora as alfinetadas de diamante que se distribuem gradativamente, forma elegante de se ofenderem sem se transparecerem mal educados, conservando uma tradicional e rigorosa educação francesa. O filho mais velho, após ter montado uma sala especial para projeções cinematográficas, amante da boa arte e distonante daquela insuportavel realidade social, se levanta para fazer um convite: "Gostaria de convidar a todos vocês para assistirem um maravilhoso filme de Luis Buñuel, "O Discreto charme da Burguesia", que vocês adorarão. Esta película é um marco do movimento surrealista, no cinema. Apresenta um grupo de burgueses marcando um encontro para um jantar. Os convivas chegam antes da data marcada. Resolvem ir para um restaurante. Vêem um corpo caído na sala e desistem. Marcam outro encontro. Desta vez chegam na hora marcada. Porém, os anfitriões não estão presentes, porque pularam a janela para fazer sexo no jardim. Os convivas desconfiam que foram chamar a polícia para prendê-los, devido seus envolvimentos com coisas ilícitas....por aí vai o belo filme!"
A mãe se levanta e diz: "Este filme não me interessa, porque já convivo com ele há anos, na nossa realidade. De vez em quando, nossos amigos nos convidam para jantarmos em restaurantes e nós não suportamos o odor de suor dos garçons, o cheiro de óleo queimado da cozinha, os garotos pedindo dinheiro na porta, as pessoas esbarrando na gente pela rua, com embrulhos sujos, o som alto dos restaurantes, a falta de gosto na estética dos salões, e muitas vezes nos retiramos, porque não suportamos esta sociedade suja. Este negócio de pular a janela, aqui em casa mesmo, já aconteceu uma vez, em que marcamos o jantar e seu falecido pai pulou a janela dos fundos, para fazer sexo com a empregada dentro da piscina. Ele tinha mania de sexo aquático. Acho que em outra encarnação ele foi um peixe espada violento.Para me engabelar ele declamou Fernando Pessoa, dizendo que "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena", e eu retribuí imediatamente, que para "a empregada, tudo valeu a pena, porque a coisa não era pequena!". Quanto à polícia entrar aqui em casa, já aconteceu também anos atrás, quando em pleno jantar, fomos incomodados pela polícia federal à procura de envolvidos em máfias financeiras. Meu filho, veja se encontra um filme que se adeque a outra realidade. Uma realidade que não existe neste mundo, por exemplo!"
Para finalizar esta história, reconheço que é óbvio, que a burguesia possui o seu discreto charme!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O SALVADOR DA PÁTRIA

Um intelectual percorre a exposição, observando detalhe por detalhe, enquanto uma senhora muito simples o acompanha. Democracia é assim mesmo. Portas e janelas abertas com possibilidades a todos. Pode ser que em algumas circunstâncias complique, mas vale a pena exercitá-la. Aliás, a democracia é como o ser humano: nasce do exercício em si.
Desta forma abriram a exposição em praça pública. Todas as obras de Salvador Dali, expostas num imenso salão sob os olhos atentos e curiosos das pessoas. O surrealismo contrastando com a decoração delicada da sala. Ora, entender Dali, não é simples. Suas introspecções a níveis intrapsíquicos nos confins do inconsciente freudiano ou coletivo junguiano, percorrendo a vastidão sexual e os campos oníricos, requerem uma base sólida de conhecimento, para interpretar suas obras. Por exemplo, através de um gafanhoto ele interpreta a perda e o medo; através da formiga, o fim, a destruição, o desejo sexual; o ovo representando o útero, o mundo; caramujo representa a cabeça do homem; o relógio a essência da teoria da relatividade einsteiniana; o elefante é o contraste espacial em sua distorção longitudinal. Na tela renasce a metafísica transcendida do mundo transcendental/onírico.
O professor permanece em silêncio diante do quadro "Crianças geopolíticas assistindo o nascimento do novo homem", de 1943. É um quadro profético. Após a segunda guerra mundial, acreditava-se que o homem seria outro, depois de tantos horrores passados. Dali não pensava assim. Tanto que o quadro mostra uma paisagem apocalíptica de um nascimento hecatômbico de um récem-nascido/homem saindo de um ovo(o mundo), sendo assistido por uma criança assustada e amedrontada e uma mulher-esqueleto/musculosa ao mesmo tempo. Os continentes saem do ovo em estado de degradação, inclusive da África Ocidental cai uma lágrima, enquanto um filete de sangue escorre junto com o naciturno.
Ao lado, um auto-retrato do pintor, com os olhos arregalados, os cabelos esvoaçantes, a boca semi-aberta num semblante desesperador.
A senhora pergunta para o intelectual? "Quem é ele?"
O professor responde: "É o Salvador Dali!"
"Coitado, merece toda esta homenagem. Com todo este mundo caindo aos pedaços, ele conseguir salvar tudo isto, não foi brincadeira não! Mas qual era o nome dele?"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

SURF MORTAL

O rapaz era atleta, ninguém pode negar. Mas era estudioso também. Por que estes dois predicados não podem co/existir no mesmo verbo adolescer?
Pois bem, o garotão está lá na sala lendo em voz alta, uns versos do Navio Negreiro, de Castro Alves, para entender melhor a época da escravidão:
"Estamos em pleno mar.... dois infinitos,
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu, qual o oceano?...
Na cozinha, preparando o jantar, a preocupadíssima mãe pensa: "Ah! meu Deus, ele agora vai procurar um tsunami para surfar!"

PORTUGUÊS EM FORMA DE CÃO

Foi o tempo de nossas avós. Não cabe mais português comer sabão pensando que é queijo. Nem adianta contar para seus filhos e netos, que um português viu a lua brilhando no fundo de um poço e pensou que era um queijo. Isto já passou. Estamos em outra época. Cinema em casa, comida instantânea, computador com todas as suas possibilidades, celular multi-uso, inclusive sendo enviado ao espaço, usando o sistema Android do Google, robôs evolucionários, nanoeletrônica baseada no spin, vídeos holográficos, oásis artificiais, e-book, etc.
Marido e Mulher, gajos legítimos do Porto chegam ao Rio para turismo. Entram em um grande supermercado e ficam impressionados com a riqueza do Brasil.
O maior sonho do Manuel: comer quibes brasileiros. Ele sabia que aqui se faz quibes mais saborosos que em qualquer terra árabe. A mulher queria agradá-lo a todos os custos.
Diante daquela montoeira de pacotes, encontrou o que queria: "Achei, Manuel, aquilo que você mais gosta de se por a comer!"
Todos os presentes arregalaram os olhos, quando viram na mão da portuguesa, um enorme pacote de rações para cães Deli Dog Carne!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Por que o homem saiu de cena?

Segundo seu neto, informações dadas ao pé de ouvido, ele era um homem comum, igual a qualquer outro. Bom pai de família. Bom marido e amigo incondicional de seus filhos. Tudo bem, era um ser do seu tempo. Trabalhava na roça o dia inteiro. Cuidava dela, diversificada entre o milho, arroz, feijão, legumes. Plantava o pomar em volta de casa. Tratava de galinhas e porcos e suas meia dúzias de vacas leiteiras. Seu moinho d'água fiava sem cessar pela correnteza morro abaixo. Sua engenhoca de cana, colocada no canto da estrada, era socializada para todos os viajantes que iam de um patrimônio ao outro. Aos sábados descia até ao patrimônio para jogar bola de pau com os amigos. Era assíduo em todas as festas e não perdia uma missa aos domingos. Inclusive levava o padre, em sua charrete, para almoçar em sua propriedade, uma galinha com quiabo.
A partir de um certo momento, tornou-se arredio e desapareceu do convívio permanente familiar e nunca mais foi à cidade, nem para ser abençoado pelo bispo semestralmente. Por que o homem saiu de cena? Esta é a pergunta fundamental e intrigante deste trágico acontecimento. Por que ele se afastou para sempre de todos e se escondeu de quaisquer pessoas que tentassem se aproximar dele?
Seu neto me desvendou toda a história, com o seguinte caso, embora também seja roceiro e não tenha conhecimento além do revelado pelo senso comum.
"Meu avô ficou deste jeito, desde que aqueles homens, isto há muitos anos atrás, estiveram aqui fazendo propaganda de um produto bom para matar formigas, o tal do DDD. Um veneno que mata de uma vez só todo o formigueiro e mata outros bichos também. Vovô chegou um pouco atrasado para a demonstração que foi no coreto da pracinha. Ele apenas viu o homem lá em cima do coreto, com um vidrão na mão falando: duas colheres disto no buraco do inseto, acabou. É só botar no buraco do inseto! Não fica mais nada vivo!
Daquele dia em diante Vovô Aniceto saiu de cena!"

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

HORITO, O LIMPADOR DE TAPETES

Caso de japonês? Não tem não? Não brinque comigo, pois tenho muitos. E todos são verdadeiros. Este afirmação das verdades contidas em meus contos, é tão importante, que já me deu um prêmio em primeiro lugar, num concurso de mentiras.
Mas este é verdadeiríssimo! (existe este termo verdadeiríssimo? Parece uma mistura de verdade com Veríssimo! O caso aconteceu sim!).
Horito, ganhava sua vida limpando carpetes e tapetes numa área muito grande de condomínios em São Paulo.
Vou ser rápido, porque história de japonês, tem que ser de acordo com os movimentos nipônicos.
Certo dia, uma senhora burquesa viu o japonês dando uma sequência de saltos mortais no pátio do condomínio. Horito pulava pra trás e pra frente, inclusvie num magnânimo salto, pulou por cima de um palio da Fiat.
"Horito, meu filho! Eu não sabia que você pulava assim. Você é um artista nato. Se você for trabalhar num circo, vai ganhar dez vezes mais o que ganha, limpando carpetes e dando pauladas em tapetes, além de ganhar fama mundial!"
Lá do chão, agachado em prece hariquiri, Horito, conseguiu balbuciar: "Nô, nô sô atista nô! É proquê sinora nô sabe que é tomá uma paulada no saco!"

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

COISAS DE PORTUGUÊS

Casos de português, papagaio e gaúcho, eu tenho mais de mil. Mas o portuguesinho matriculado certinho, bem passadinho, comportadinho nos seus dez anos, foi para a escola no primeiro dia de aula. A professora advertiu: "Tudo o que eu fizer, vocês fazem. Dever não se esqueçam de fazer. Vou cobrar tudo o que eu fizer. Ouviram? Tudo o que eu fizer? Ouviu Manuelzinho Joaquim?" "Ouvi sim, professora, pode deixar comigo. Pode vir quente que eu já estou enfumaçando!"
Passado um mes, a professora chegou afoita: "Agora chegou a hora da cobrança. Quero ver tudo direitinho!" Todos os alunos mostraram seus deveres, só o Manuelzinho estava com o caderno todo em branco: "Olha aí, seu desobediente! Você não fez nada, nada, nada!!!!"
"Fiz sim professora. Eu fui o único que cumpriu seu pedido. A senhora disse que nós fizéssemos tudo o que a senhora fizesse não foi? Pois bem, a senhora escrevia no quadro e eu escrevia no meu caderno. A senhora apagava o quadro e eu apagava no meu caderno!"
Outra de português. A mulher perguntou para o portuga: "José por que você não me procura mais?" Ele respondeu: "Mas também tu não te escondes!"

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A ressurreição do velho Sebastião

Sabia que muita coisa pode ser feita com uma casca de banana? Pode-se fazer papel, mas não aconselho fabricar papel higiênico com casca de banana, porque se alguém....deixa prá lá, a minha cabeça pensa demais.
Fazer doces cristalizados ou tipo em calda e também em forma de cocadinhas. Tem gente que coloca casca de banana na sopa. Mas tudo isto tem uma higinezação adequada.
Porém, depois que você comer a banana, porque sei que você gosta, cuidado pra não jogar a casca em qualquer lugar.
Pois foi assim que um mal educado fez, logo no meio de uma ladeira. Lá vinha Teresinha, toda pintadinha de batom. Pluft...!!!!...??? Caiu de pernas pra cima no meio da penumbra da tarde, com a calcinha decorada que nem papelzinho de bombom. O seu Joaquim que passava perto com sua dentadura relaxada, tomou um susto tão grande que a mesma voou dois metros pra cima e tomou direção em torno da velhinha Dona Naná. Quando, ela que enxergava pelas décimas partes, viu aqueles dentões vindo em sua direção, apavorou e gritou: "Sai fora falecido Sebastião, se você veio pra me buscar, não vai ser me abocanhando não!"

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

BORBOLETA DESLUMBRADA

É óbvio que isto aconteceu em tempos de modos passados. Numa época em que a repressão era muito grande. O sujeito quando queria desmunhecar era em terreno baldio ou num canto bem escuro, já com um cabra no cangote.
Só que desta vez, o camarada além do peso da vigilância social sexual, também carregava nas costas a cruz da religião. Então resolveu ir confessar com um padre.
Neste tempo, o confessionário dava uma fila grande igual a de Banco Pague Rápido e o padre ficava escondido dentro de uma cristaleira sem vidro, toda furadinha.
A fila foi andando e ajoelhou-se no confessionária uma mocinha dos seus treze anos nunca mais, que foi logo desadolescendo: "Seu padre me ajude, eu fico doidinha quando vejo os rapazes de short fazendo ginástica!"
O padre era muito velho e cochilou. A mocinha deu um reflexo de pensamento e arrependimento de ter falado aquilo, coisa de jovenzinha e saiu pela tangente, caindo fora.
Nisto chegou o rapaz alegre e ajoelhou-se. Aquele jeito exagerado dele de ajoelhar tipo miss, acordou o velho padre que disse: "Então você fica doidinha quando vê os rapazes de short fazendo ginástica?"
O alegrete levantou como uma dançarina do ventre e gritou bem alto: "Eta velhote adivinhão!" E caiu semi-desmaiada como uma borbleta deslumbrada.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

AMIGOS SE REUNEM NUM RENDEZ VOUS

Desde que aquela turma de amigos fundou o seu Clube União para o Progresso, eles já fizeram inúmeras festas, entre elas, churrascos, piqueniques, serestas, jogos de futebol, etc. Inclusive em locais diversos: churrascarias, clubes, salões, casas de amigos, casas de praia, etc.
Eles eram muito unidos e deixavam todos informados de tudo: nascimentos, falecimentos, aniversários, viagens, doenças, mudança de emprego, de residência, etc.
Um dia, um membro do clube transferiu sua residência para um outro bairro e mandou o seguinte email para cada amigo seu: "comunico a todos os irmãos de meu clube, que estou residindo na Rua Ararauma, nº 100 - Edf. Palmas Bras - aptº 310 - em frente ao MOTEL SÓ VAI QUEM PODE. Local que sem demora faremos nossa maravilhosa festa, com certeza no sábado que vem.
Os irmãos ficaram todos de orelha em pé. Festa no motel? O encontro é em que lugar do motel? Tem alguma outra entrada, talvez no fundo do motel? Vamos ter que pagar a entrada do motel? Vamos entrar em dois?
Teve um membro que chegou a telefonar pro outro dizendo: "Pode deixar que levo você. Deixa a entrada por minha conta!"
Depois de tudo explicado, o irmão passou um email para todos, consertando a informação: "Minha gente, a festa vai ser no salão do meu prédio, lá no último andar. O motel é só como ponto de localização. É só onde vocês podem me localizar porque estou na frente!"
De qualquer maneira, o remendo quase ficou pior do que o rasgado.

sábado, 1 de janeiro de 2011

PORTUGUÊS NO VOLANTE

Manuel Joaquim Almeida Brás Albuquerque Silva Souza Alenquer Araújo Silveira, assim é como gostava que lhe chamasse. Um nome extenso, que parou em silveira, porque o tabelião cochilou no dia do registro. Enorme, mas de alcunha pequena: Manujô! Como todos o chamavam.
Assim que saiu o fusca do Sarney, o gajo comprou-o. Chamou a mulher Adelaide, que após silveira, acrescentava Magalhães, em honra a um ancestral Fernão de Magalhães, famoso navegador. "Mulher, já que você tem sangue de quem gosta de andar, que tal darmos uma voltinha no meu novo carrinho!" "Pois, pois, Manujô! Vamos a andar enquanto o vento está a nos favorecer!"
Planícies e colinas desfilaram pelo retrovisor...porém, o carro parou. Não ia nem pra frente, nem pra trás. O portuga endoidou: "Mulher, nosso carrinho deu defeito! Levanta o capô prá ver o que tem no motor!" Adelaide levantou o capô e não encontrou motor algum: "Bem o motor do carro desapareceu! Deve ter caido na estrada! Vamos abrir o carro todo, pra ele refrescar e não pegar fogo, porque tá catingando fumaça!"
Quando o portuga abriu a tampa traseira do fusca, declamou: "Adelaide, que maravilha, nosso carro tem um motor sobressalente! Pega a maleta de ferramentas, no banco traseiro, que vamos tirar ele e colocar na frente!"