domingo, 4 de março de 2012

EL CIELO ESTÁ DESPEJADO

O casal debruçado sobre o parapeito do janelão gradeado raramente era captado sobre as sombras de suas dúvidas. Fisionomias cansadas, abatidas e surradas sob o varal suspenso do sofrimento da vida.
O acontecimento familiar seja quem fosse ouví-lo, não acreditava em tamanha aberração. Sua filha Aline, de apenas quinze anos, começara de um dia para o outro a falar somente em español. Mudara totalmente de identidade e não reconhecia seus familiares nem seus pertences.
Por mais surrealístico que seja, ela nunca estudara tal idioma, não tinham nenhum ascendente hispânico, nem moraram em comunidade de fala espanhola.
"Mi nombre es Rafaella, mi apellido es Vasquez y mi sobrenombre es Ellinha! Yo no soy brasileña, pero a mi me gusta mucho esta tierra!"
Os pais enlouqueceram. Tentaram comunicar-se com ela, primeiramente em português, depois com uma habilidade heroica em portunhol, onde conseguiram uma vesguinha de diálogo.
Rosa não se lembrava mais do seu passado familiar. Os pais também se confudiram se ela era a mesma Aline. "Estos no son mis abuelos! UD'S también no son mis padres!"
Rosa antes, agora desabrochada à luz de uma Rafaella portenha, a cada dia mais os tornava confusos. Sem nunca ter sido realmente Aline?
A supervisora escolar percebendo a ausênncia da educanda na Escola, telefonou-lhes, recebendo a estranha resposta: "Rafaella foi passar uns dias com seus avós que estão doentes!"
"Rafaella? Aí não é da casa de Rosa?"
"Ah! Sim! É da casa de Rosa mesmo! É que estamos pensando em adotar uma outra menina que tem o nome de Rafaella. Isto é, terá, caso a adoção seja concedida"
Levaram-na a um psiquiatra. Este afirmou que a doença deles necessitava de um acompanhamento mais intensivo. Talvez até mesmo uma internação numa Clínica de Repouso.
"Nossa doença? El cielo está despejado! No entiendo por quê en esta casa siguen pensando así! Sin embargo, no todo esta perdido. Es una transculturacion o globalizacion de una niña! En nuestro entorno solo vemos la figura de Rosa!" Desabafou o pai.
Resolveram buscar ajuda em um centro espírita. Agora a doença pegara também no pai.
Mas a casa espírita só tinha congá para caboclo africano ou indígena. Incorporados ou não, seja lá o que for, não falavam español.
"Cuando la llamé por teléfono, ya se había ido!" Retrucou a esposa, agora também acometida da língua espanhola.
Madre mía! El altercado fue realmente feo! Saíram de lá empaturrados de fumaça, incenso e bafo de cachaça. Resolveram eles mesmos investigar a causa de tamanha confusão linguística e cultural.
Compraram vários quadros imitativos de Salvador Dali e Pablo Picasso. Rafaella os adorava. Inclusive Velasquez, Cervantes e Buñuel.
Um dia ela jogou um beijo para seus pais e pulou para dentro de uma tela de Picasso para nunca mais voltar à realidade.
Agora o casal está mais abatido do que nunca. Uma vida inteira dedicada às artes, à cultura, às atividades intelectuais, queimada às cinzas das tardes caindo naquelas janelas gradeadas.
Penosos tratamentos naquela casa amarela. Delírios completos sobre os umbrais das janelas.

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