Daquele sórdido relacionamento sobrara-lhe a mochila vazia. Jogara fora todos os seus pertences. Os presentes esvoaçaram sobre os telhados vizinhos e dormitaram em suas entranhas.
Brincos bailaram pelas janelas para joguetes nos bicos dos pombos. Sapatos sobrepuseram aos seus saltos em tranpolins para o infinito do destino. Vestidos e blusas pegaram caronas na ventania da noite.
Foi um dia de festa para vários moradores de rua.
Suas vestes agora cobriam os corpos magros e desarranjados dos anônimos abandonados. Uma orquestra desafinada de trajes e sapatos desencontrados em pés trocados.
Batons e esmaltes à revelia surgiram em lábios e unhas à meia parte de cada uma boca e mãos que se ofereciam para aquele festival de fartura da moda, desafiando a insistência da neblina.
Os livros foram recolhidos para servirem de travesseiros. Algumas páginas arrancadas foram transformadas em chapéus de soldados. Outros foram devorados pelos ratos.
Silvinha saiu no dia seguinte com apenas sua mochila entreaberta. A última roupa pelo corpo. O único par de sandálias lambendo a poeira de suas lembranças.
Sentiu que alguma coisa caíra em sua mochila. No início não deu nenhuma importância, pois sua cabeça girava a mil.
Pelo miadozinho sofrido compreendeu que era um gatinho. Ele fora atirado da janela de um sétimo andar, por ter urinado pela milésima vez numa poltrona de veludo.
Ele tremia de medo. Silvinha falou baixinho com ele e cantou uma canção de ninar acalmando-o.
Sentou-se sob uma árvore na praça. Ali seria sua nova residência. A do gatinho não precisava de nada melhor que sua mochila.
A única que não foi atirada pela janela, recebera o último despejado por uma janela.
Mais dois moradores de rua. Todos com uma história para contar de coisas voando pelas janelas. Janelas que se abriram em portas para outras realidades.

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