Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
O GRANDE JANTAR
O anfitrião prepara a mais cobiçada das festas. Descem do teto como chama de estrelas, luminárias resplandescentes em seus candelabros de marfim, comprados outrora por milhões de dólares, adquiridos com facilidades pelo comércio insensato de insumos e remédios vendidos abundantemente.
Talheres de ouro e pratos da mais autêntica porcelana orlam a mesa coberta com uma toalha com sua seda de fios de prata. Convocara todos os seus publicitários e propagandistas para convidar seus amigos íntimos. Gostaria que todos comparecessem à grande festa de gala da noite permanente.
Pelos silenciosos computadores, com suas telas dinâmicas abertas nos átomos dos ambientes gelados, o convite busca os olhares atônitos. Rondam emails aos pedaços, dirigidos por satélites desordenados na atmosfera carregada, aos toques dos últimos tecidos epiteliais das mãos trêmulas e nervosas. Chegara o momento do grande banquete.
A permanência da noite por dias vem se decompondo num manto de fumaça e fuligem, caindo sobre o telhado dos galpões esquecidos como velhos calendários anunciando o fim das estações.
Noites sem brisa de rosas. Sem mãos acariciando ou apalpando a polidez dos corpos. Carentes de surpresas e suspiros. Sem amanhãs escapando sob o perfume do sol. Sem o brilho das estrelas sobre os vales fartos entre os seios das colinas tangidas pela romântica lua.
Não há mais lua. Ela desapareceu totalmente numa minguante em plena cheia. Noites sem desejos, sem a doce aurora da esperança. Caules de arbustos como esqueletos desnudos de carne, perfilam pelos quarteirões ausentes de luzes e sons.
O anfitrião anda de um lado para o outro do salão, coberto de granito importado. Está apressado. Não há motivo algum para se preocupar com as horas no vitral de seu relógio rolex. Não há mais o esplendor das horas. Tempos míticos em que cronos devorava seus filhos ávidamente.
Os monumentos públicos lá fora, em torno das praças, são como musgos nas bordas de lagos oceânicos. O solo restou sobre a aparência de cascos de tartarugas gigantescas. Grandes lixões de escombros, entulham cidades e mísseis entre corpos carbonizados. Leitos de rios mortos cruzam territórios, abrindo veias de estradas sobre o sepultamento total das águas.
O anfitrião não espera evangelicamente por seus amigos. Os cavaleiros entraram cabisbaixos, com suas órbitas oculares sobressaindo pelas faces ressequidas. Fantasmas herdados dos filmes de Fellini e Buñuel, sentaram-se também à mesa. Seus cavalos ficaram do lado de fora respirando a chuva ácida apocalíptica. Como nada acontecera conforme as profecias anunciaram, iniciou-se o último jantar do fim dos tempos.
Sobre cada prato dourado, os serviçais colocaram as últimas pílulas transgênicas e em cada taça os últimos pingos medicinais para o brinde final.
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