Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
O FANTASMA ENVELOPADO
Interessantíssima esta continum/estória de hoje, pois realmente ela dá continuidade ao relato abaixo intitulado “Ressurreição nos escombros”. Portanto, aconselho aos leitores, primeiramente ler este conto, para que lhes abram girassóis de compreensão sobre o que se segue. Ficarão mais perplexos ainda como acontecem fatos cotidianos, sob o ir e vir das pontes rolantes do shopping da vida.
Não pensem que é um seriado, ou novela capitular, mas pode ser algo vultuoso como se num jogo de moedas alguém jogasse sua moeda para o ar e desse ao mesmo tempo cara e coroa. Portanto, torna-se mister ler o citado acontecimento de Vasquez. Mas não façam como um português, que por indolência de ler a primeira estória, resolveu ler a segunda de cabeça para baixo, pensando em sua tênue inteligência, que assim encontraria o fio da meada(en el precipicio o despeñadero encontraré el verbo). Além de não encontrá-lo, surtou, uma vez que havia terminado de almoçar. Acabou seus dias sentado na praça declamando versos para as prostitutas, bêbados, moradores de ruas e pastores ambulantes. Inclusive dizendo que seus autores eram Luis de Pessoa e Fernando Camões.
Após o cinematográfico beijo que Vasquez ao levantar-se do gavetão do IML deu na esquizoparanoica, o velho funcionário caiu morto no chão, quando já estava abrindo a nona gaveta no gongo da nona hora do dia. Ele que engavetara as mais esdrúxulas mortes, morrera simplesmente de um susto à frente de um ressuscitado da cachaça e de uma esquizoparanoica pomba gira falsificada. Fora amortecido de surpresa pelo crepitar do defunto e da loucura.
Dita sorte. Ele que engavetara as mais prodigiosas mortes do mundo, morrera diante do amor tresloucado de dois paradisíacos personagens do cotidiano. Ele que sempre vivera solitário. A velha pensão na rua de um canto do porto, foi seu esconderijo durante décadas. Sem parentes algum habitara seu quarto silencioso e úmido como um místico em uma gruta. Além da cama, da cortina roída de rato, de um guarda roupa manco, de uma pequena mesinha com uma caneta esferográfica sobre a mesa, a única coisa que ali diferenciava a solidão, era uma folhinha presa na parede, congelada num tempo verbal do pretérito passado.
Alguém sentiria sua ausência? Ele agora engavetado como outros anônimos no gélido salão dos desconhecidos. Não, ninguém falaria mais nele. Ninguém tocaria assunto algum que lembrasse este personagem. Naquele ano mesmo, ele já estava no sétimo chefe e neste troca troca infinito de superiores, não sabia seu nome e vice-versa. Alguns funcionários não passavam da paletós presos aos encostos de cadeiras. Outros eram contratados e descontratados conforme as farpas entre políticos. Ele era o único funcionário efetivo do recinto, às vésperas da aposentadoria, embora tenha sido aposentado de forma tão fantástica. Seus pagamentos continuaram por alguns meses e como ninguém ia recebê-los o gerente enviou uma carta para a secretaria de finanças solicitando informações. A secretaria suspendeu imediatamente o pagamento mensal e mandou engavetar o processo, receosa, com bastante sigilo para não vazar para a imprensa, pensando ser um caso comum de funcionário fantasma. E foi. Não "no comum".
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