Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
RESSURREIÇÃO NOS ESCOMBROS
Vasquez nunca fora um homem dedicado à sua família. Horas intermináveis nos balcões dos bares não lhe sobrariam tempo suficiente para uma vida de convívio comum e assim passou grande parte de sua existência como um estranho, um estranjeiro em sua própria tenda.
O álcool entornado garganta a dentro ao ir e vir dos copos e das noites com suas garras tigrescas furtaram-lhe a conta gotas o que de mais valioso pode um homem vangloriar, que é a sua saúde e o que dela submerge por consequência notável.
Os que lhe eram mais próximos, mas pelo convergir da escassez da presença, também lhe eram mais distantes não perceberam de imediato a fragilidade que lhe batia às portas, e aqueles que lhe eram mais distantes em parentesco e mais próximos em noitadas, não estavam nem aí para a sua grave situação, como também não estavam para si mesmos e os seus.
Primeiro foram as pernas que incharam e os pés ficaram tão cheios que não cabiam mais em sapatos alguns, mas ele conseguiu encontrar numa lixeira umas sandálias gigantescas que se acomodaram a contragosto, mas por necessidade última em seus pés elefantíacos. Caminhando tropegamente ganhava e perdia bares adentro.
Chegava em casa alta noite, enquanto todos estavam dormindo o bom sono não samaritano e cada um na sua cama refrescava o cansaço do dia à sua moda e bem estar, conforme lhes abastecia sonhar.
Vasquez caía no primeiro espaço vazio entre a sala e a cozinha, ou entre quaisquer cômodos onde a luz semi nua da rua atravessasse pela vidraça como a espada de um mágico circense transpassa a caixa incógnita das contorcionistas salientes e sexy's.
Entravam e saiam naquela casa muitas pessoas que para Vasquez eram vultos silenciosos e desconhecidos, sem nome, sem genealogia alguma, melquisedeques de sua travessia pelo mar do alcoolismo e do delirium tremulum.
Foi justamente pelas vagas oceânicas deste transe frequente, que um dia caiu sobre a calçada e dormiu aparentemente seu útlimo sono, ou bem diria quase último, pois com os olhos arregalados e sem piscar foi levado sem documentos e encomendas diretamente para um hospital. Declarado o óbito de um atendido às pressas sem identidade, desconhecido completmente do meio social, não poderia haver outro destino que o instituto de médico legal onde foi enclausurado num gavetão como indigente.
Mas notícia anda com pernas compridas chegando à sua família algum boato de sua queda na rua e dado que o eterno ausente não dormira pelo chão da casa naquela noite, seu filho correu em sua busca por todos os recantos, terrenos baldios e ruelas sem sucesso algum. Continuou sua vida como se nada acontecera, afinal de contas por mais novo que fosse, já estava cansado e calejado de avisar desde a infância o fim trágico ao seu pai.
No instituto tanto a entrada de cadáveres como a procura dão-se de ombro pelos corredores. Uma senhora aflita busca vorazmente pelo filho desaparecido enquanto o funcionário recurvado pelos anos de ofício público abre gavetões e gavetões aos olhos ávidos da senhora inquieta.
O corpo de Velasquez avançou sobre a gaveta até um metro e setenta da sala. A mulher fitou-o e percebeu pelo avanço dos anos que não era seu filho, mas que o referido cujo estava abrindo os olhos e ensaiando um bocejo reluzente após uma morte aparente de catalepsia patológica.
A senhora presumidamente desequilibrada mental, esquizoparanoica, estendeu suas mãos para Vasquez, que de um salto abraçou-a e beijou-a longamente, levando a um desmaio profundo e a uma queda irreparável ao velho e assíduo funcionário do IML.
Colocaram-no no gavetão vazio e saíram como dois pombinhos pelas portas abertas em frente à praça, que atravessaram inconscientemente rindo às cangalhas como duas sombras sem vultos, ou sem histórias e com um único destino de vida de mão única.
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