Poeta, escritor, amante da música e da arte. Um ser humano muito simples em busca do significado profundo da vida, que é o amor, por onde a humanidade ganha sentido no exercício da fraternidade.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
TERCEIRA ESTÓRIA SOBRE VASQUEZ
Esta terceira estória é realmente sequencial. Critiquem-me se quiserem, por ter decidido escrevê-la assim. Estou na moda. Por acaso não vivemos uma época do seriado ao vivo? Antigamente era o seriado da tela. Agora ele saltou sobre o mar da existência. Portanto tomei esta iniciativa de narrar-lhes todo este fato neste contexto. Em série se transformou o lócus social. As pessoas se formam em série hoje em dia. Antigamente as séries terminavam no segundo grau, hoje denominado ensino médio. Agora perpetua. Professores são enlatados em série como sardinhas. Termina uma, acopla outra e assim se adapta uma meia sola de um sociólogo ou de um filósofo a um bacharel de economia. Este continua sendo o país dos bacharéis. Com um título deste você se torna porto internacional de qualquer diploma. Por isto como bacharel dos contos e sendo que há muitos vagando por aí, preparo meus faróis para recebê-los.
Foi minha opção escrever esta estória conforme a atualidade. Vivemos a época da opção. Então é necessário ler primeiramente a Ressurreição nos escombros, depois O fantasma envelopado, que estão logo abaixo, para em seguida pisarmos no terreno sólido e fértil deste conto.
Logo após o fatídico beijo de Vasquez ressurgido do gavetão do IML e do envelopamento do funcionário morto numa síncope de susto, a pomba gira oxigenada levou o ressurreto para a sua casinha à beira rio. Para não dizer que ela vivia só, prefiro afirmar que o rio passava sozinho à sua beira. Que as pessoas passavam sozinhas pela rua e que até mesmo os cães não se aproximavam daquele lugar inóspito a um ser humano lúcido. Mas levando em conta que Vasquez renascera da morte, por que dizer não àquela manjedoura fétida com uma janela quebrada por onde despencava a lua?
A bruxa do 171 ou maligna seja lá o nome que queiram alcunhá-la também não tinha parentes e ninguém por ela, a não ser o pobre alcoólatra que a tomou ou foi tomado instantaneamente por si. Por outro lado ela não é daquelas que se você gostou leve pra casa. Não. Ela é justamente o contrário. Já que gostei sou eu quem levo pra casa.
Começou sua vida num convento logo após a morte de seus pais picados por um única serpente. Desaparecimento trágico este que no espaço conventual se transformou numa alusão adâmica. Acontece que ela vivia grande parte da tarde conversando com a virgem maria horas sem fios. Sendo que o monastério sobrevivia graças à confecção de toalhas de rendas, coube uma decisão da madre superiora e como a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, entre uma e outra, foi decretada sua expulsão permanente daquele espaço religioso. Sem a virgem pelo amor de deus não existiria aquele lugar. Sem a maria, digo.
Por um longo tempo ela viveu pelas praças e dividiu com os pombos cada palmo permitido pelos transeuntes. Nunca encontrara um lugar mais extraordinário do que aquele para morar. Ali poderia conversar tranquilamente com quem quisesse, uma vez que a maior parte destes discursos poligâmicos era transitada com seres invisíveis e se mudava de assunto não importando para que lado tocasse o vento.
Mas foi num bate papo muito agradável com um louco estarrecido que ela soube de uma casinha abandonada à beira do rio, onde solitariamente assentou-se. Foi muito bem recebida pelas entidades não existentes que ali também moravam e chegou à plena convicção que não era um casebre, mas uma mansão imperial. Toda noite havia baile na corte.
Entre a casinha e o rio se alargava um pequeno quintal onde ela girava tresloucadamente tentando se comunicar com todos os seres viventes dos planos astrais e desastrados. Na noite anterior ela havia tido uma visão de um personagem que se dizia seu filho e que ela o procurasse por toda parte.
Cansada de sua busca infeliz, uma vez que nunca foi casada e nunca tivera filho algum, foi aconselhada por uma velhinha religiosa a procurá-lo no IML. Digamos que esta foi uma manhã de sorte para Vasquez. Ou de azar, não sei.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário